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5 de janeiro de 2012 - 13:44Futebol

A essência do ídolo

SÃO PAULO | Tenho lá minhas restrições para idolatrar alguém. Como tudo hoje tem seu significado deturpado, a visão de ídolo se confunde com a histeria que se faz por aquelas menininhas — e, por que não, menininhos e marmanjões — nos shows destes pseudocantores de refrões chicletes, na composição de um clichê bem colocado em redes sociais ou na vitória sobre um reality show. Basta que um rotule, pronto, a manada vai atrás. Ser ídolo ficou bem fácil e fútil.

Por isso o que eu acabo tendo é uma admiração profunda. Gosto demais de uma cantora canadense principalmente por sua capacidade de compor, o único piloto por quem torci muito na vida também é de lá, e tem um segundo, um italiano, que representa uma lição de vida das mais fantásticas destes tempos atuais antes e depois que perdeu as pernas, amigos com histórias de superação ou mesmo inteligência e argumentação visíveis e notáveis, e pouca coisa mais.

O que pode me fazer mudar de leve este conceito é a origem. Como o Capitão Nascimento faria para explicar o que significa estratégia, ídolo vem do grego εἴδωλον, como todos deveriam bem saber, e é um objeto de adoração que representa materialmente uma entidade espiritual ou divina, e frequentemente são associados a ele poderes sobrenaturais, ou a propriedade de permitir uma comunicação entre os mortais e o outro mundo. Grato que sou ao Wikipedia, é hora de analisar este Marcos.

Nome do meu pai. Nome do nosso goleiro. E foi um goleiro que me deu as maiores alegrias no futebol, para o time que eu escolhi torcer, não um Matador ou Animal. Eu não corri para uma sacada e gritei para a vizinhança inteira ouvir por causa de gols. Quando mais eu comemorei, Marcos era o centro das atenções. Foi Marcos que me fez entender bem o que é essa praga chamada futebol e me fez qualquer conexão com qualquer outra parte do universo.

Foram duas vezes no mesmo ano e, na intersecção, duas situações semelhantes. As defesas que tiraram os coirmãos da Libertadores em 1999 e 2000. O título da competição em casa no primeiro ano. São três imagens, três flashes, os pênaltis, os apitos, o olhar fixo na bola e a boca aberta. A boca que, quando aberta, é um espetáculo para os repórteres. Porque, face a mediocridade que se vê no esporte brasileiro, dele se extrai conteúdo. Marcos rende manchete no nosso linguajar, mas não porque quer ser polêmico. É porque é simplesmente sincero. É porque simplesmente é simples. Ser simples no mundo de hoje é artigo em raridade. Marcos é o Fusquinha no meio de tantas BMWs, com ou sem marcas de balas.

Pois há muito se especulava que aquele que batizaram como santo estava para se aposentar. Num cenário dominado por assessorias e declarações oficiais, optou pela discrição. Grande, fez o anúncio de sua retirada num dia em que muito se falava dos pseudocantores de refrões chicletes, fato que levou a várias composições de clichês bem colocados em redes sociais e quando foram revelados os novos candidatos a herois de uma nave-mãe pela 12ª vez. Não importa se ele é mais ou menos que o goleiro coirmão que faz gols — mas, putaquepariu, é o melhor goleiro do Brasil. Ele conseguiu ser praticamente unânime no gosto de um povo num microcosmo de tanta rivalidade. Marcos é Marcos.

Eu só o vi de perto uma única vez na vida. Eu fazia um cursinho concomitante ao último ano do colegial e era muito próximo ao hotel onde meu time costumava ficar concentrado. Passando a pé lá, vi os jogadores saindo em direção ao ônibus que levaria ao jogo. Lá estava ele, e eu, que não sou muito afeito a este tipo de ato, fui e pedi um autógrafo. Pois não só deu como começou a conversar. Na época eu nem tomava umas e outras, mas é o típico cara que vale a pena sentar à mesa do bar do Zé da esquina e ficar horas porque tem história e valor. Não pelo que ele fazia enquanto profissão, mas pelo que é como caráter. E isso é o que importa no fundo.

Claro que não lembro de absolutamente nada do que conversei, Marcos se foi para o ônibus, eu guardei o bloco de folha de fichário na mochila e segui meu rumo. Só me lembro que era 1998, um ano antes de ver que nascia meu ídolo em sua essência.

25 comentários

  1. Antonio disse:

    Marcos é aquele goleiro que dia desses foi buscar a bola 6 vezes no fundo das redes, quando jogou contra o Coritiba? A sei, lembrei dele agora …

  2. Max disse:

    Vitor, não sou muito chegado a comentários em blogs, mas não poderia deixar passar este em branco, realmente me encantei com seu texto.
    Só pra constar: Sou Palmeirense de nascimento! Nunca dei bola pra futebol, minha praia é automobilismo mesmo!
    Mas não tem como negar que Marcos foi a grande referencia do Alviverde! Corinthianos, Santistas e São Paulinos são unanimes em reverenciar seu nome como um dos grandes do esporte.
    O Palmeiras perde sua referência, sua identidade e o esporte um grande Astro! Um exemplo de integridade.
    Marcos te desejo todo sucesso da vida em tua nova jornada! Que Deus te abençoe sempre!

  3. alberto disse:

    Além da sua personalidade, O Marcos tem a simpatia do público geral pela sua atuação na campanha de 2002,época em que os brasileiros ainda tinham o costume de torcer pela Seleção. Nunca vou me esquecer da sua defesa no chute de Neuville, que nos valeu o título, pois o jogo ainda estava 0×0. E nem dos pênaltis defendidos contra o meu time em 2 Libertadores.

  4. Luis Henrique disse:

    Mais um comentário feliz da sua parte. Congruente as suas palavras no prágrafo final a uma situação vivida pela minha família. Moro em Perdizes em um prédio que o Marcos tem imóveis e aluga para seus colegas de profissão. Em um deles morava o Hugo (super criticado pelos São paulinos, como eu). Meu filho quebrou a perna e quem foi visitá-lo…O Hugo, sem câmeras, imprensa chata…Tudo na mais boa vontade e caráter.. Sei bem o que é ficar fã de um cara.. E, eu sou do Hugo, por tudo que fez com meu filho…Jogou até botão com ele e deu uma camisa autografada, por todos. Ídolos de verdade, cujas balas, são doces de verdade, noitadas, para dormir e, declarações simples que não impressionam a imprensa, mas, os corações das pessoas! Victor, Marcos e Hugo, tri- campeões em discrições, um exemplo de humildade e inteligência a ser seguido pelos jovens apaixonados por flashes, paparazzo (eh assim que se escreve), para podermos dar um pouco de mobilidade natural a vida das pessoas. Abs

  5. Dionisio disse:

    Bonito Victor !

  6. Lúcio disse:

    Não é qualquer jogador que consegue estar acima das paixões clubísticas. Marcos é um deles. Valeu, Marcão! Sou corintiano, mas admiro demais esse cara! Ah se todos os jogadores fossem assim…sem máscara!

  7. Glauber disse:

    Grande texto.
    Marcos, o grande goleiro.
    Ter um cara destes na história do nosso clube ainda nos motiva a termos orgulho da camisa verde.
    Valeu Marcão!
    E como alguém disse aí em cima, Marcos e Senna. Os dois grandes.

  8. Heldo disse:

    Victor, por essas e outras que leio diariamente o Grande Prêmio.
    Todos vocês nos apresentam um jornalismo crítico e, pelo que podemos observar nesses anos, sempre ressaltando a importância dos valores éticos e morais nos esportes. Estou farto há muito de ler e escutar baboseiras. A que ultimamente me irrita demais é o tratamento como ídolos que muitos dão a pseudocantores (ex.: Britney, Justin Bieber, etc.). Vivemos uma época de “fábrica de ídolos” e não de ídolos em essência, como você disse. Abraços a todos do GP.

  9. Armando Vieira disse:

    Parabéns pelo excelente texto, Victor.

    Apesar de ser corinthiano, também admiro o Marcos exatamente por tudo que você falou. Um cara simples, sem estrelismos, dedicado ao trabalho e ao clube, sem confusões na vida e acima de tudo sem se achar melhor que ninguém. Vai fazer falta não somente ao futebol, mas às pessoas que tiveram a oportunidade de conviver e conversar com ele.

    A simplicidade de um ídolo, em contraste com tantos escândalos, tiros, armas e confusões que vemos no mundo do futebol, traz à mente o fato e a lembrança de sermos simples mortais. Complicar, para que? esse parece ter sido o lema na vida do Marcos.

    Tive a grata satisfação de viver um momento muito parecido com o que você teve com o Marcos. Foi quando encontrei um piloto no Autódromo de Goiânia e fui lá pedir um autógrafo, mesmo sendo avesso a esse tipo de coisa. Pois bem, o piloto não só me deu o autógrafo como parou de fazer o que estava fazendo e ficamos conversando por aproximadamente 30 minutos. Seu nome: Emerson Fittipaldi.

    Abraços.

  10. Mariana disse:

    Era o Etapa da Frei Caneca rs?

  11. Julio Diaz disse:

    Sou Sãopaulino, mas o Marcos … ha o Marcos que cara, que pessoa, que goleiro !!! Devo a ele uma alegria unica quando estava engessado e ele nos deu o pentacampeonato do Mundo !!! Valeu Marcão … É lógico que tenho como Ídolo o Rogerio Ceni, o cara dos 100 gols, do meu time de coração, que assim como o goleiro Alvi-Verde tem disposição para fugir do lugar comum na hora de falar e agir, mas o momento é do São Marcos e tenho certeza que até o RC está dizendo : Obrigado Marcão, Parabéns por tudo e Parabéns ao Palmeiras por ter tido a Glória de nos presentear com esse verdadeiro Ídolo !!!!

  12. José Maioral Júnior disse:

    Simplesmente perfeito e justo.
    É de fato hoje na mídia quase impossível um “fusquinha” mesmo carregado de conteúdo e carater se destacar em meio aos “carrões” ainda que estes sejam vázios e pobres de espírito.
    O Marcos me lembra o Oscar do Basket. Vai fazer tanta falta quanto ele. Um dos segredos é de fato a humildade. Infelizmente esta qualidade hoje é vista como defeito num mundo que prega o poder como um os valores mais importantes, como se não houvesse um grande poder na humildade (a cultua japonesa que o diga). Mas o grande segredo de caras como o Marcos, o Oscar e um poucos é o amor. Ainda que pareça piegas eles de fato amam o que fazem, os clubes que defendem ou a seleção brasileira quando vestem a camisa. Amam de fato a torcida e se comprometem com ela. Vibram quando vencem e sentem vergonha na derrota. Não são como a imensa maioria que beija a camisa num dia e na semana seguinte estão se vendendo para uma prosta melhor, sem a menor consideração com o passado. Parabéns Victor. Essa realmente valeu demais !

  13. André Almeida Ribeiro disse:

    Saudades…………de nosso único ídolo no futebol.

  14. Maurício Freitas disse:

    Independente do fato de eu ser palmeirense, teria pelo Marcos a mesma admiração que tenho, pela pessoa diferenciada que ele é, dentro de um universo de mediocridades e interesses fúteis.
    Já o admirava profundamente como profissional, quando ouvindo uma reportagem no rádio, soube a verdadeira razão de ele não ter ido para a Inglaterra: ficar próximo do filho.
    Ele não era casado com a mãe da criança e, caso tivesse ido para o exterior, não teria condições de acompanhar de perto o crescimento e a educação do filho pequeno. Num meio em que só o dinheiro importa e os seus protagonistas fogem de um exame de DNA, como o diabo da cruz, a razão por ele apresentada me soou magnífica. E era o goleiro do meu time! E bom prá c….!
    Numa extensa reportagem que consta na Folha de São Paulo de hoje, ele menciona que se tivesse jogado apenas um jogo no Palmeiras, já teria sido feliz e realizado um sonho. Muito mais ter jogado tanto tempo no time para o qual sempre torceu.
    Este é o tipio de identidade rara hoje em dia, algo que os torcedores de todos os times desejam, por isso ele é tão admirado por todos.
    Não fosse tudo isso suficiente, também garantiu o gol na Copa de 2002, o que não é pouca coisa, considerando o desempenho do incensado Júlio Cesar na Copa de 2010.
    Faz muito tempo que não me interesso por futebol, mas do goleiro Marcos vou manter uma das melhores lembranças de minha vida, ao estando presente no Parque Antártica, em 1999, vê-lo garantir o título da Libertadores nos pênaltis.
    A estátua que o Marcos merece no Parque Antártica deveria ser proporcional à sua estatura moral e seria gigante.

  15. André disse:

    Marcos é legal. A Alanis também.
    Já o Villeneuve…

    • Nei disse:

      Pai ou filho?
      O pai era fera… num tempo que a pegada era bem diferente da de hoje

      • Heldo disse:

        Alanis ou Shania?
        Não é o Villeneuve, não.
        É o Alessandro Zanardi (piloto italiano que perdeu as pernas).

        • alberto disse:

          “Gosto demais de uma cantora canadense principalmente por sua capacidade de compor, o único piloto por quem torci muito na vida também é de lá, e tem um segundo, um italiano…”

          Victor já disse aqui o quanto gosta do Villeneuve, falou dos dois (Jacques e Zanardi) Não é o Gilles porque nem tinha nascido nessa época.

    • César Lima disse:

      Engraçado, também pensei na Alanis Morissette e é claro no Zanardi, mas o primeiro piltoo canadense que me veio à mente, até também porque torci muito por ele, foi o saudoso Greg Moore.

    • cleber disse:

      Gilles,eterno,primeiro e unico.

  16. Marcelo disse:

    É… não sou palmeirense.. pelo contrário.. ele já nos tirou da libertadores… mas um ídolo não se faz só dentro de campo e sim o que a pessoa passa fora dele tb..
    Nunca o vi de perto, aliás, nem os jogadores do meu time faço questão…
    Mas o Marcão (sim, no aumentativo mesmo) é que o que todo jogador deveria ser, honesto, verdadeiro e com vontade de trabalhar para ganhar o que é seu, será que alguém lembra que em uma das contusões que teve falou que o clube não precisaria pagar o salário dele??? Será que mais alguém faria isso???

    Importante fazer gol???? Acredito que não.. o importante para um goleiro é defender e isso o Marcos fazia muito bem.. não é a toa que virou “Santo”

    O futebol não perdeu só um jogador, perdeu um exemplo de vida, perdeu uma pessoa que tinha o caráter acima de tudo.

    Abraços a todos.

  17. RafinhaDias disse:

    Que boa leitura, essa. Mesmo para quem não é do lado verde…artigo de raridade.

  18. Ravelli disse:

    Excelente texto Victor!!!

    O Marcão é um dos poucos ídolos de verdade que eu tenho, ele e Ayrton Senna.

    Vou sentir muita falta de gritar: PQP é melhor goleiro do Brasil, Marcos!!!

    O futebol ficou mais chato a partir de ontem…

  19. Victor, também sou palmeirense.
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    É difícil para nós conseguirmos demonstrar aos torcedores rivais o quão Marcos tomou nossa admiração e tornou-se nosso ídolo.
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    É certo que o povo brasileiro como um todo, não só os palmeirenses, também teve seus “milagres” realizados pelo Marcão, o que nos facilita explicar a importância deste guarda-metas dentro das 4 linhas.
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    Para nós, palmeirenses, suas atuações em campo foram excelentes e até lhe deram o título de “santo”, mas fora dos gramados é que ele se destacou para a gente.
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    O Marcos era em campo a identidade da torcida do Palmeiras. Não à toa vestiu a camisa 12 do Palmeiras, o 12° jogador: a torcida. Com ele atuando pelo Palmeiras eu me sentia dentro do gramado, pois dele partiam as ações que qualquer torcedor do Palmeiras tomaria em cada momento de uma partida.
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    Marcos nunca teve aquele discurso “pateticamente” correto de elogiar o grupo após uma derrota vexatória jogando desculpas esfarrapadas, ou de se eximir de culpas após seus frangos, ou de puxar o saco de jornalistas que vinham com perguntas imbecís levantando a bola para auto elogios. Nunca fez questão de vestir a camisa 1 ou a “01″ para dizer que era o “10″ entre os goleiros. Queria apenas entrar em campo, honrar seu salário, seu time, sua torcida e voltar para casa curtir sua vida simples ao lado de sua família, sem ostentar carrões, colares, relógios, fones de ouvido espaciais, penteados diferentes, nada…
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    Como você bem disse, no mundo hoje há muita futilidade. Há uma enorme inversão de valores em todas as classes sociais e os novos “ídolos” ou “heróis” nada mais são do que artifícios produzidos pela mídia para levar a multidão de cabeça fraca às compras, alimentando esse consumismo idiota que desvaloriza tudo rapidamente.
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    Caras como o Marcos estão acabando e não só no esporte, mas na vida. Por isso que, pra mim, o mundo vem cada vez mais chato.
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    É isso. Parabéns pelo texto e obrigado Marcão!
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    “PQP é o melhor goleiro do Brasil: Marcos!”

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