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17 de junho de 2013 - 12:54Grande Prêmio

O apoio

SEGUNDA-FEIRA COSTUMA SER o dia da preguiça e do tédio por ser o dia mais longe do próximo fim de semana. Mas esta que vem marca a importante primeira rodada efetiva da tentativa de mudança no sistema que oprime o cidadão brasileiro sob a túnica da democracia que existe até a página 2 da Constituição. O GRANDE PRÊMIO vive um microcosmo de um esporte que representa bem as castas superiores da sociedade, independente dos partidos ou das ideologias. Quem está por dentro tem ciência de que o automobilismo é um poço de maus tratos em que seus comandantes se eximem das responsabilidades e estão envoltos em histórias escusas. São casos positivos de dopings que se tenta esconder, autódromos que se vão para dar lugar à especulação imobiliária sem que haja reposição obrigatória pela lei, má formação dos pilotos e prática inexistência de uma categoria de base, omissão de responsabilidade em mortes em eventos clandestinos. Os paralelos são conhecidos: os governos omitem e agem na calada da manhã, da tarde e da noite, os lugares que brotam e tungam o dinheiro público a pouquíssimo troco, a péssima formação intelectual e educacional das novas gerações e as tantas mortes que até a ditadura ainda não esclarece, que dirão as que se sucedem no cotidiano das grandes e pequenas cidades, periferias ou centros urbanos.

Os centavos – os 20 em São Paulo e outros tantos e variados em vários lugares – foram o pavio desta dinamite social que ganhou contornos nacionais. As primeiras explosões que surgiram apontaram a falta de jeito dos manifestantes, que atacaram justamente o sistema de transporte que tentavam defender ou torná-lo gratuito, e encobriram o que acabamos evidenciando até este domingo: o despreparo abissal da Polícia Militar em lidar com uma situação adversa. Mas é evidente que os adversários desta instituição não são os jovens com faixas empunhadas ou até mesmo rostos tapados e sprays que delineiam nas pixações as palavras de ordem. A ação em casos como o do Pinheirinho corroboram que a PM age com a impáfia e a imposição de quem tem a ditadura no DNA e se defende na lei que permite o abuso das autoridades, deixando ao largo a sensibilidade da conversa, da negociação e da pacificação.

Apesar dos vídeos que invadiram as redes sociais – que finalmente se tornam as grandes aliadas para o desdobramento destes movimentos e palco da veracidade dos tantos cenários que vimos nos últimos dias – vazando a força desproporcional e desmedida das balas de borracha e cassetetes de efeito imoral, a própria polícia e quem as manda agir desta forma se apoiaram na desfaçatez da negativa das ações, transferindo o caos que provocaram aos manifestantes que, em sua absoluta maioria, gritavam para que não houvesse violência. Nem a Bandeira nem as flores foram respeitadas em seus simbolismos, e não há como plantar a paz num jardim de terra improdutiva. Aqueles tais centavos geraram prejuízos muito maiores que os financeiros, e ainda hão de gerar porque a cansada sociedade enfim se ligou e se dispôs a se mobilizar para, pelo menos, expor ao mundo que há um severo descontentamento com esse modus operandi.

As primeiras revoltas que se surgiram nas principais capitais foram uma espécie de testes de pré-temporada, dos quais se tiram conclusões evidentes de quem vem forte para a briga e de quais armas pretendem usar. A partir de hoje, os povos que hão de se unir devem ter a consciência de, intrinsicamente, cortar aqueles pré-dispostos em ir para o confronto direto. Os milhares de cidadãos que estiverem engajados em um bem comum vão às ruas aos montes com suas faixas, cartolinas e bandeiras, e seus apitos, megafones e vinagres, sem entrar em choque com o Choque para que a população não sofra nem termine o dia novamente chocada com as cenas que dele decorreriam – e que muito provavelmente apontariam para o vandalismo das massas nas câmeras e reportagens das grandes mídias velhamente interessadas em deturpar os fatos.

O GRANDE PRÊMIO, ainda bem, não faz parte destes grupos de comunicação, não tem a pretensão de fazer cobertura destes eventos e nem tem uma posição política enquanto site. Mas expressa clara e plenamente sua posição a favor destas manifestações populares – e, novamente, repudiando quaisquer atos que levem aos males físicos e públicos. Porque, acima de tudo, deseja que o Brasil inicie um processo de eliminação das múltiplas chagas que o impedem de ser um país grande e deem voz a quem tem sido recriminado não só nestes últimos dias, mas há tantos anos. O automobilismo, neste sentido, tem de ficar de oitavo plano porque há um bem muito maior com que se preocupar. Porque há um bem a se transformar.

 

A temporada em si começa hoje, com um calendário que vem sendo definido aos montes. Era intenção do GRANDE PRÊMIO detalhar as datas, os horários e os pontos de concentração, mas surpreendentemente verificou, com absoluto entusiasmo, que em mais em mais de 200 cidades brasileiras já há protestos marcados, além das outras tantas em vários países que abraçaram a causa – e onde a polícia soube desempenhar seu papel de protetora e conciliadora. Assim, para facilitar, deixaremos as nossas redes sociais livres para divulgação dos mesmos.

O GRANDE PRÊMIO sabe que as disputas nestas pistas serão inevitáveis, que as farpas serão trocadas e que as dificuldades serão imensas. E torce para que este povo que se finalmente juntou termine a temporada das manifestações com um título inquestionável.

Editorial originalmente publicado no Grande Prêmio em 17 de junho

8 comentários

  1. Giulio Mela disse:

    Moro na Italia, e as noticias do Brasil estao chegando, com todos me perguntando o que està acontecendo: Antes que acabe de explicar, sinto incondicinal apoio de todos, os protestos sao justissimos, e mesmo que nao de em nada, era hora de dar um susto naqueles que por anos, em nome de uma democracia fajuta, ficaram com o pao e jogaram as migalhas para um povo de bom carater, mas faminto.
    Chega uma hora, ainda que no meio dos que protestam haja individuos violentos e imbecis, em que as pessoas querem mostrar que nao sao imbecis.

  2. Fernando Sandrini disse:

    Parabéns pelo posicionamento firme. Agradeço a vocês e ao pessoal da ESPN Brasil que sempre “mexeu” com quem os acompanha, alertando para o atual estado das coisas em NOSSO país.
    Vocês, JORNALISTAS sérios, são e serão de extrema importância para a transformação e reconstrução do NOSSO país !

    Abraços e vamos pra rua em paz e com inteligência !!

    Sábado(22/6), as 15 horas, terá ato contra a PEC 37 no MASP.

  3. Celio Ferreira disse:

    APENAS 2 PERGUNTAS : 1- PORQUE NÃO FIZERAM ESTE MOVIMENTO( QUE ACHO LÍCIT0)
    QUANDO O GOVERNO ANUNCIOU O AUMENTO BEM ANTES DA DATA.
    SOBRE OS ESTÁDIOS : DEVERIAM PROTESTAR A 6 ANOS ATRÁS ANTES DO BRASIL
    SE CANDIDATAR A COPA DO MUNDO. ( DEPOIS QUE FIZERAM OS ESTÁDIOS ULTRAFATURADOS NÃO ADIAnta MAIS , A GRANA NOSSA JÁ FOI PRO RALO.
    AGORA TUDO ISSO É MOVIMENTO POLITICO , COM UM MONTE DE LARANJAS
    ENGROSSANDO O MOVIMENTO.

  4. Thaigo disse:

    Parabéns ao GP, (que poderia ficar totalmente alheio a este tipo de comentários, já que o site é focado em automobilismo) por tomar um posicionamento referente a este momento tão importante pelo qual o país passa. Victor, estenda o meu “muito obrigado” a toda a equipe.

  5. Maurício Freitas disse:

    Concordo plenamente com a observação feita por vocês. Os manifestantes erraram a dose nas primeiras passeatas, o que os levou a um certo descrédito perante a população. Mas a impressão que tenho agora, é de que o movimento ganhou um foco extremamente necessário, que transcende os tais 20 centavos.

    Há muito os políticos encastelados no poder, do PSDB, do DEM, do PMDB e do PT também, precisam entender que paciência tem limite. Minha esposa é professora da rede pública e vive amargurada com a profissão dela, que não é valorizada. As escolas são depósitos de alunos incultos e sem esperança, criados por um sistema em que bastam os números de aprovação automática. O nosso medo fica evidente em cada semáforo. A classe média é refém de seus condomínios fechados e a classe C vive a vida de gado.

    Nos meus anos de faculdade vivi a época das “Diretas Já” e imaginei que o nosso direito ao voto fosse consertar séculos de atraso, A ignorância, no entanto, falou mais alto todos esses anos. Ainda se vota por uma dentadura, os Sarneys e seus pares, essas pragas, continuam a mandar no Maranhão, no Senado e nos ministérios. E os marketeiros ainda iludem, com suas campanhas milionárias, regadas a “caixa 2″, que somente é conseguido com corrupção, não se iludam aqueles que procuram justificativas.

    Eu não pedi a Copa do Mundo ou Olimpíadas. Estava escrito nas estrelas, todos sabiam que seria o “Festival do Sobrepreço”. Só os idiotas se deixaram iludir por aqueles que venderam sonhos.

    Que o mundo saiba que não estamos contentes, que somos roubados e não queremos mais ser um “povo cordial”.

    E, acima de tudo, que os manifestantes saibam se fazer entender, quebrando apenas os paradigmas e a ordem vigente.

  6. Clóvis Colletto disse:

    Prezado Victor,

    Meu comentário tem uma intenção apenas, parabenizar o Grande Prêmio pelo posicionamento jornalístico. Tamanha manifestação, em sua vertente mais pacífica, é de dar um nó na garganta. Nó que deriva de uma mistura de emoções. A feliz experiência de ver um contingente de gente que não é alienada e que se motiva a lutar por seus direitos pela primeira vez em muitos anos, mas também permanente revolta de viver num lugar que lesa seu povo de forma habitual e mórbida, impedindo-o de crescer.

    Em todo o Brasil vamos reclamar nossos direitos. O povo de Santa Maria (RS) será mais um cidade a ir às ruas.

  7. luiz alberto disse:

    Me desculpem quem diz que a policia é despreparada,ela é muito bem preparada sim! Para defender interesses privados,de “otoridades” disfarçadas de democrata más que na verdade não passam de uns ditadorzinhos enrustidos.Eu já fui militar e de uma tropa dita de elite,num país de terceiro mundo(naquela época ainda não era emergente,que traduzido deve querer dizer:Subserviente aos de primeiro mundo,com direito de alguma palavrinha, de vez em quando) e cheguei a conclusão de que :Forças armadas de terceiro mundo só são eficientes contra seu própio povo,pois são usadas contra população desarmada e despreparada e da forma mais covarde possível.
    O treinamento militar deve deixar os praças acéfalos(praças são; soldados,cabos ,sargentos e sub oficiais,ou seja os que vão para linha de frente),pois parece esquecerem que suas famílias também são cidadãos civis,sujeita as mazelas de nossa podre classe politica e não podem se refugiarem dentro dos quarteis que dão suporte a esta corja.

  8. Lisandro disse:

    Parabéns!! bom saber que existe imprensa livre neste país!!!

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