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25 de agosto de 2015 - 15:30F-Indy

Wilson e o que é preciso fazer

SÃO PAULO | A morte sempre é devastadora no esporte que a gente vive desde moleque. É pior ainda quando se está envolvido com as personagens. E não é qualquer um. Wilson é do tamanho de Bianchi, ainda que seu 1m93 não lhe faria nunca um piloto bom. Sua capacidade correspondeu à altura. Seu caráter, idem.

Wilson também era meio desengonçado por sua timidez, que não lhe fazia esconder o sorriso. Rapaz do agradecimento rápido quando era elogiado — sempre —, procurava disfarçar mudando o assunto. Não havia um ser ali no grid da Indy ou até mesmo com quem conviveu na F1 que fosse capaz de lhe dizer um algo negativo.

Era inconcebível ver Wilson fora do grid neste ano. Com uma Dale Coyne pedinte, fez miséria, e quando a miséria bateu mesmo à porta da equipe, viu-se sem um lugar fixo. Foi Michael Andretti quem lhe abriu as portas de suas várias casas e ver que ganhava um ente num estalar de dedos. Da E à Indy, buscava uma fórmula para sobreviver no automobilismo. Quis o destino, mais uma vez, acabar com esta prova desnecessária.

A morte foi confirmada às 10 da noite no nosso horário noturno, mas vão aí algumas infos de bastidores que agora são permitidas dizer. Na noite de domingo, Wilson passou por uma cirurgia na cabeça, com a ciência dos médicos de que suas chances de sobreviver eram menores do que 10%. Justin morreu na tarde de ontem, começo da noite por aqui, e a demora em divulgar a informação se deu porque a família quis estar toda reunida no hospital da Pensilvânia enquanto a notícia saísse da Economaki Room, a sala de coletiva de imprensa do Indianapolis Motor Speedway.

Wilson talvez seja a vida cabal para modificar alguns conceitos enraizados no automobilismo. Foi com Bianchi, também foi com Wheldon — sua cabeça bateu no alambrado quando decolou há quase quatro anos em direção ao alambrado de Vegas —, com Surtees, quase foi com Massa. Os carros de monopostos estão seguros demais, e isso não precisa ser revisto. Mas não se pode mais passar batido em nome de tradição alguma que pilotos estejam morrendo com estas pancadas.

Evidente que todo mundo sabe que automobilismo é um esporte de risco. Só que não é com este dogma que todo mundo tem de cruzar os braços e aceitar que há uma vulnerabilidade mortífera. E nem por definição que um cockpit fechado — ou qualquer definição que se dê a uma eventual proteção — vá modificar a natureza de um monoposto (um lugar) ou open-wheel (rodas abertas/descobertas).

A F-E tem nos ensinado algumas lições em relação a isso. É claro que todos os puristas e amantes de velocidade torcem o nariz quando ouvem um trem de força que se assemelha ao som de um processador ou triturador e um carro que não atinge a maior quilometragem por hora. Só que, ao fim e ao cabo, o que nós gostamos mesmo é de competição, de corrida pura, de ultrapassagem, de emoção e de disputa. E é por isso que a categoria de carros elétricos acabou caindo tanto no gosto popular. É meramente uma questão de costume se habituar com uma categoria que nasceu diferente.

“Ah, mas a F1 e a Indy não são diferentes, não podem ser diferentes”. Amigo, a ocasião pede mudança. É preferível uma capota bem desenhada e protetora e o desgosto de alguns do que o desgosto geral pela morte de um daqueles que nos fazem gostar deste espetáculo. Se houver uma solução melhor que a cobertura, que então seja aplicada. O que não se pode mais é deixar quieto em nome do passado.

Até porque há muitas coisas do passado que já foram modificadas e são muito mais tenebrosas do que uma simples proteção de cabeça. E o mundo segue o mesmo. Só que sem Wilson e Bianchi.

27 comentários

  1. Iuri Jacob disse:

    Texto impecável, Victor. Além do mais, as vezes, uma mudança dessas pode se transformar em um fator a mais na disputa. Quem sabe?! O importante é ser coerente. Uma vida não pode valer menos que uma tradição.

  2. eduardo disse:

    a proteção de cabeça não teria salvado o Bianchi que num carro coberto teria morrido do mesmo jeito e talvez na pista porque bater num trator a alta velocidade é fatal,na Indy seria mais fácil acabar com as corridas em super ovais,varias vidas seriam poupadas

  3. Lazzarus disse:

    Eu espero que façam alguma coisa mesmo pq sempre que morre um piloto o Grande Premio fica parecendo o programa da Sônia Abrão. Tem matéria até sobre a cor da cueca que o piloto vestia quando morreu. Piores que corvos, tá louco…

    • Victor disse:

      VM responde: Mostra essa matéria, amigo Lazzarus, sobre a cueca. Mas vai uma sugestão, se achar conveniente: morrendo alguém, não acesse o Grande Prêmio. Parece algo simples. Abs.

      • Lazzarus disse:

        É isso que eu faço. Esperei uma semana.
        Mas parece agora que o luto tá durando um mês…
        Mas o ponto que quero chegar aqui – e levem isso como uma crítica construtiva – é que vocês costumam atacar os “corvos” do jornalismo e, bom, estão iguais.

        • Victor disse:

          VM responde: Quando as críticas construtivas são bem embasadas, a gente leva em conta, certamente — aquelas que forem assim. Mas agradeço de qualquer forma. Abs.

  4. Gilmar Castanheira disse:

    Concordo plenamente Victor Martins, algo tem de ser feito, morte na pista não tem graça nenhuma!!!

  5. Lobod3@ngra disse:

    A vida não tem preço, essa não volta depois de perdida, tradições são irrelevantes diante de tamanha grandeza. Esposas que perdem seu parceiro, filhos que perdem um pai, pais que perdem um filho. É imensurável.
    O conceito de capota, ou como chamam canop, semelhante aos aviões de combate (caças), acho, seria a melhor opção.
    Fogo – Não lembro em 30 anos que acompanho a formula 1, o fogo começar dentro do cockpit, (pode ter acontecido, eu disse não lembro), em alguns casos de explosão, o fogo invadiu o carro de fora para dentro, em pitstops com reabastecimento, quando houve derramamento de combustível no chassi quente, e outros.
    Calor – impossível ter ar-condicionado num carro com tanta tecnologia, não precisa ser clima de montanha, basta ser confortável, a Mercedes, anteriormente tinha um duto de ar que os pilotos acionavam com o braço.
    Acesso – os canops dos caças são ejetados em caso de necessidade. Pode-se colocar o acionamento pelo piloto, pela equipe, pela organização de prova (caso o piloto esteja inconsciente).
    Detritos atingindo torcedores – é relevante? Sim, impossível de corrigir, colocar proteções, alambrados mais altos, etc? Não.
    O que não pode é continuar se perdendo vidas sendo possível evitar.
    É muito triste, ninguém pode sentir o que a família sente, amigos íntimos, ou a perda do próprio envolvido, planos, sonhos, etc.
    Quanto a nós somos torcedores, espectadores, telespectadores, só isso.

  6. Lucas disse:

    Victor, sobre a F-E: logo na 1ª etapa, por muito pouco o Heidfeld mudava de realidade naquele acidente com o Prost.

  7. Ravi disse:

    Quer cockpit fechado? Vai correr de Endurance ou na LeMans, simples.

    • Israel disse:

      plausível comentário, se os carros da LMP1 fossem voltados mais pra potência do que pra duração em si seriam praticamente F1 cobertos, pois os motores da LMP1 tem cerca de 100 cavalos a menos (sem considerar sistemas de energia de em ambas categorias) ,e pesam cerca de 200kg a mais que um F1. Nada muito distante. Agora com essa ultima regulamentação dos motores no WEC, o campeonato tá bombando muito e o marketing melhorou bastante assim como na MotoGP. Só a F1 que anda pra trás, incrível!

      • luigi disse:

        Pelo jeito você deve estar muito mal informado sobre potência de LM P1 os carros com configuração para até 8 M J chegam aos 2000 H P se necessário for ,pare de pensar globescamente que F1 é o máximo dos máximos pois todo avanço tecnológicos significativos em carros de competição vieram do Endurance ;do mortor com 4 válvulas por cilindro (Bentley Speed Six -1928), compressor volumétrico (Alfa Romeu 8 C 2300 -1931), injeção de combustível (Mercedes 300 S L R -1952)Freios a disco (Jaguar C type -1953),primeiro carro a usar asas para efeito Downforce (Caparral 2 A- 1966) ,cambio sequencial (Porsche 956/962 -1982). Todos estes carros foram feitos para disputar as 24 h de Le Mans (e CanAm caso do Chaparral),a F1 só se valeu destas melhorias mas não as criou. A ideia do efeito solo também foi criada para CanAm pelo genial Jim Hall para o Caparral 2 J e aprimorada para a F1 pelo mago Colin Chapman,mas mantendo o principio básico de Hall .
        Tudo de bom para você e família ,e todas as competições podem ser interessantes mas as verdades devem ser respeitadas.

  8. Bereba disse:

    Esta demorando para fazerem a transição de cockpit aberto para fechado, como ocorreu na aviação. Só não precisa ter a ejeção do piloto, mas o resto é só copiar dos modernos aviões caças. Cúpula de material transparente, altamente resistente e com sistema de abertura de emergência, que pode ser acionado por dentro, por fora e por telemetria.

  9. gustavo disse:

    muito bom seu conteudo parabens recomendo a todos e aguardo mais

  10. schibrasil disse:

    É claro que não queremos mortes nas categorias de monopostos, mas cabe lembrar que automobilismo é um esporte de alto risco, e o que estamos vendo atualmente é um tanto contraditório, do tipo; “um esporte de alto risco mas que não pode haver riscos”. É meio conflitante pensar em uma decisão para fechar completamente o cockpit. Nelson Piquet uma vez disse sobre os acidentes na F-1; “o que o povo gosta é de ver o circo pegar fogo”,

  11. focacrz disse:

    tradição, necessidade e engenharia no automobilismo sempre viveram juntas, uma puxando e empurrando a outra.
    nessas horas fico pensando qual seria a cara do comendador quando algum engenheiro disse a ele que o futuro das corridas pertenceriam a carros levinhos com motor atrás do piloto, e não mais um v12 pesadão na frente…

  12. Rafael disse:

    Tava olhando em outros sites. Desde Senna, 5 das últimas 9 mortes mais lembradas no automobilismo de monopostos talvez fossem evitadas se houvesse proteção: Ayrton Senna, Gonzalo Rodriguez, Dan Weldon, Justin Wilson, Henry Surtess. Isso sem falar no “near miss” do Massa. Não coloquei Bianchi na conta, pois não houve impacto e suas lesões foram causadas pela desaceleração extrema. Greg Moore, Paul Dana e Jeff Krosnoff também não seriam beneficiados.

    Possível redução de 55% nas fatalidades em monopostos….é de se pensar, por mais que eu goste do conceito dos monopostos com o capacete aparecendo….

  13. Ron Groo disse:

    eu entendo e respeito sua opinião, mas o frágil não são os equipamentos, mas o corpo humano.
    Se não for a pancada, o fogo, o choque elétrico, vai ser a desaceleração, asfixia ou qualquer outro efeito.
    Um carro de corrida é um treco que esquenta muito, já li nego falando em 50, 60 graus dentro de um cockipit de Stock car, imagina em um de Formula 1 ou Indy?
    Sei que você frisou o “bem desenhado” , “bem pensado” mas ainda assim eu acho temerário.
    E quando for com as motos? Como vai se cobrir moto? o dogma do risco vai continuar.

  14. Marques disse:

    Ninguém tem certeza que fechar os cockpits é a solução. Ou pelo menos, não encontraram um material ou ideia definitiva sobre o assunto. E se a cobertura trava e não conseguem tirar o piloto de dentro, e se fica preso com fogo lá? E se chover, vão colocar um limpador lá? São diversas variáveis. No caso do Bianchi não teria feito diferença nenhuma, por exemplo. Que os pilotos precisam de mais proteção na cabeça acredito que seja um ponto pacífico, mas não é certo que fechar o cockpit seja a solução definitiva.

    • Giovanni disse:

      Para chuva não mudaria nada. Hoje o piloto já tem este “problema” com as viseiras do capacete não? O mesmo produto que existe nas viseiras poderia ser usado na capota.

  15. gibson disse:

    Só não acho que no caso do Bianchi adiantaria a proteção. E tenho uma dúvida sobre essas proteçãoes: Quando vazar óleo do carro da frente, vai ser como? Eu concordo que tem de haver uma solução, mas realmente não sei como seria ainda.

  16. Vitão, vou dizer a vc oq passei os ultimos 2 dias conversando com amigos, igualmente apaixonados por automobilismo. Que é necessario se criar uma proteçao para a cabeça do piloto, isso é unanime ha decadas. O problema está sendo em como fazer isso. Afinal, precisa ser uma construção que aguente uma pancada forte, assim como nao atrapalhar a visao do piloto (uma coisa é ter horizonte baixo, outra é ter postes na frente).

    Ja vi varios cocneitos diferentes de como lidar com isso, usando os mais diferentes desenhos e materiais. Infelizmente, nao existe atualmente um material que se consiga os resultados esperados de resistencia, espessura e desenho. Sempre haverá um problema grande o suficiente que nao poderá ser ignorado.

    Isso nao significa, como vc falou, que se deva apenas cruzar os braços e garanto que todos os envolvidos com esses carros maravilhosos nao estao, muito pelo contrario. Mas te falo que a soluçao para anular casos como o de Justin ainda devem demorar um pouco para aparecer, talvez uns 10 ou 15 anos ainda.

    De qualquer jeito, foi-se um cara fora do comum, dentro e fora do carro. Que fará muita falta nos paddocks pelo mundo… #RIPJusstinWilson

    • Fernando disse:

      Procura uma imagem do F-16. Olha a capota (ou canopy). Ela foi revolucionária para os pilotos de caça pois fundiu para-brisa e capota na mesma peça. Assim, não há pontos cegos causados pela moldura na frente do piloto.

      Ainda pensando nesse caça, o F-16 tem uma velocidade máxima de quase Mach 2,0 e essa capota foi projetada para suportar choques de pássaros a essa velocidade e até projéteis de pequeno calibre. Acredito que funcionaria muito bem nos monopostos.

      Existem hoje materiais como o policarbonato que possuem uma boa resistência mecânica e poderiam atender aos requisitos para um carro de F-Indy ou F-1.

      Com relação a chuva, existe um produto a base de teflon que se passa no para-brisa que o torna hidrofóbico. A água não adere ao para-brisa, ela escorre muito rapidamente. Isso poderia ser usado.

      A retirada rápida do piloto, basta voltar aos caças.

      • Giovanni disse:

        Para chuva não mudaria nada. Hoje o piloto já tem este “problema” com as viseiras do capacete não? O mesmo produto que existe nas viseiras poderia ser usado na capota.

  17. Bruna disse:

    Perfeito. É o que eu digo: automobilismo nunca vai ser 100% seguro. Mas só porque o esporte é de risco, não significa que tenha de ser de TODOS os riscos. Falo por mim: não ligo para tradição. Ligo de ver meus pilotos favoritos vencendo e todo mundo saindo VIVO(A). Não é mais 1900 e antigamente, é 2015. A gente tem tecnologia é pra usar/testar. Não pode é o conservadorismo e o dogma continuarem a tirar gente bacana da gente.

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