O Zé da força

O

SÃO PAULO | Mortes de gente pública não costumam me causar grande comoção. Uma hora todo mundo tem de ir, e aparte o pensamento simplista, que pode denotar até certa frieza, é uma forma de encarar (ou tentar) a passagem de uma forma mais confortável. De forma geral, mortes só mexem quando são meio que de surpresa, acidentes, banalidades. Diagnosticado com câncer no fim de 2006, levou seis meses para que meu avô ficasse entrevado numa cama, com um tubo, e me permitam guardar aqueles últimos momentos. No dia fatal, estava longe, a trabalho em Londrina em meio ao caos aéreo. Não havia como voltar rapidamente, e fiquei até meio conformado por não ver a última cena.

A luta de uma década e meia de José Alencar sempre me fez pensar que ele morreria de qualquer outra coisa: tropeçando numa pedra e eventualmente batendo a cabeça, engasgando com o mé de produção própria que ele gostava de verter, dormindo e em silêncio, como até deveria ser diante do que passou entre quimioterapias e hemodiálises, naquele que consideram o mais belo dos passamentos. Estava enganado. Da mesma forma que imaginava que sairia desta última como das outras vezes. Para quem acredita em algo celestial ou não, tinha de ser assim.

A morte de Alencar me foi uma surpresa. Não precisei lembrar pelo que meu avô passou e me peguei secando a lágrima furtiva. Eu me surpreendi comigo mesmo. É daqueles dias tristes que haveremos de lembrar vez ou outra. Alencar vai pra lá com uma mancha no currículo — não ter reconhecido uma filha fora do casamento —, mas passa para a história como o maior exemplo brasileiro de luta contra o fim comum. Lança na cara da gente a lição para a gente não reclamar da vida à toa e achar que um pequeno contratempo é o maior problema do mundo. Mostra, principalmente, que esmorecer, jamais.

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28 Comentários

  • Estou assumindo que temos opniões políticas completamente distintas, mas o fato de ter publicado o meu post faz com que eu o admire, ganhou ainda mais o meu respeito.

  • Victor, entendo a sua empatia com o caso.
    Meu pai morreu de Alzeheimer misturado com Parkinson e sempre que vejo um caso semelhan do me comovo tambem.
    Mas nao se engane o cara nao era flor que se cheirasse nao.. pode ate ter vindo do nada e tido um certo esforço mas nao lembrou da origem humilde na hora de se dar bem. Afinal ele era PL (partido só de santo ne?) e depois na epoca do Lula mudou para um tal de PRB eu acho (partido da galera santa da igreja universal). Nao precisa dizer mais nada..
    E no governo nao fez nada. Falam que ele pedia diminuicao de juros, so nunca disse como. Em resumo: com ele ou sem ele tinha acontecido do mesmo jeito. De cancer qualquer um de nos pode morrer e tenho certeza que quase todos vai lutar contra. O lance é se vamos ter grana para isso e se vamos ficar na tv fazendo propaganda do nosso sofrimento para ajudar candidato.
    Afinal ate os crapulas adoecem ne…

  • Acho que ninguém merece sofrer com essa doença (pois já vi de perto o estrago), mas transformar esse cara em exemplo e santo é o fim da picada.

    O fato de estar morrendo e não reconhecer uma filha demonstra o nível de canalhice desse senhor, já foi tarde.

    Além de tudo o analfabeto “tira” proveito político, medíocre é pouco.

    Agora, os blogueiros de F1 do IG são ótimos analisando e comentando corridas, mas quanto se metem a fazer propaganda dos petralhas, “derrapam na curva” ….

  • O cara veio do nada, conseguiu construir fortuna ANTES de entrar pra política, e aí tem que ficar na fila do SUS, só pra gente reconhecer toda a força do cara pra continuar vivo?
    Tem hora que ser rico no Brasil parece ser crime..

    • Não, Jonas.
      O cargo que ele ocupou, a equipe da qual participou, o torna responsável, também, pela saúde no Brasil.
      Ele deveria se tratar aqui, no SUS, por respeito aos brasileiros, por uma questão de cumplicidade com milhares que sofrem desse mal e que morrem aos montes.

      Chegou até a ter seu tratamento apreciado pelo congresso, já que se ausentou do país por mais de 15 dias.
      Melhorar a saúde no Brasil pra quê, né?

      Analogamente, é a mesma coisa que um cozinheiro fazer um rango e não ter coragem de comê-lo.

  • Mancha no currículo, tenho eu que tentei dar um passo maior que a perna, quebrei e agora estou lutando para recuperar. Não assumir uma filha não é mancha no currículo não.

    É falta de carater mesmo.

    Só morreu agora porque perdeu o poder. Já tinha dito que o que o movia era a sede de poder e que não passaria um mês depois que perdesse o cargo. Durou até muito.

    E não adianta falar que não sei o que é esta doença pois meu Tio e minha Vó morreram desta doença maldita. Mas o fato de nmorrer de câncer não faz de ninguém um santo ou bom carater.

  • Queria ve-lo na fila do SUS, como meu pai, que morreu de cancer, ficou.
    Exemplo são os brasilieros que ralam todo dia nas filas dos hospitais de merda deste pais.
    Sem falar na filha que ele se recusou a reconhecer.
    Grande exemplo…..

  • De todos que trabalharam com o Lula, ele é o que mais respeitava, mais gostava. Lembro-me de um discurso dele que eu ouvi, quando o príncipe do Japão veio para cá. Depois de ficarmos ouvindo o ex-governador do Paraná (a anta do Requião) falar por horas (fez milhares de japoneses de idade avançada esperando de pé por um longo tempo), ele assumiu o microfone e, sensato, praticamente deixou de discursar para zoar o ex-governador. Naquele dia ele ganhou a minha admiração.

    Mas… ele deveria ter feito o tratamento contra o cancer aqui no Brasil, na fila do SUS. Assim, veria a falta que faz para a saúde aquele dinheiro público que o ultrapopulista Lula insistiu em torrar para se autopromover.

    Que descanse em paz, força para a família.

  • minha mãe era uma mulher bem resolvida de bem com a vida, descobriu que estava com câncer aos 59 anos de idade. Tentamos todos os tipos de tratamento, mas infelizmente ela era uma professora, cansamos de gastar tudo que tinhamos pra conseguir internar ela pelo INSS (cobravam por fora pelo tratamento)…não passou dos 59 anos. E este parasita o que fez pela nação…quem pagou o tratamento?

  • Belo texto Victor…sei o que é isso pois perdi meu pai, o grande herói de minha vida, de forma lenta e dolorosa com essa triste doença….hoje também me emocionei pela bravura desse ser humano JOSÉ Alencar GOMES da Silva….por coincidência meu pai se chamava JOSÉ GOMES.

  • Lição?
    Exemplo?

    ele não quis reconhecer uma filha….
    Defendeu publicamente toda a tchurma do mensalão (Petralhas principalmente)

    Menos…

    • Cara… pesquisa um pouco e deixa de ser alienado. Partido político é tudo igual. Teve mensalão em todos os principais partidos. O mensalão e Marcos Valério tiveram seu laboratório no PSDB de Minas. Depois teve o problema com o PT. E recentemente o DEMo do DF e em um outro estado que nao me recordo (Alagoas, acho). Partido é tudo igual, só muda a sigla. Mas como tudo do PT toma dimensões maiores….. A turminha elitista é o cancêr deste país…

    • elitista? mais um recalcado da pseudo esquerda… o mais engraçado é vir falar em elites ao defender o Alencar, cara do povo, humilde, simples, pobre coitado… Td toma maiores dimenções contra o PT? Pobre PT, coitadinho… Pelamor…

    • Diego, vc tem algum tipo de dificuldadede interpretação de texto? Onde defendi Alencar? Onde disse que PT é coitado? Político é tudo uma corja só, se não é corrupto, é conivente com a corrupção. O problema é que a mídia é controlada pela elite e os partidos elitistas tem seus escandalos abafados. Só não percebe isso quem é da elite ou tem algum problema de cabeça.

      E sobre o tópico, O Alencar foi citado como exemplo de força de vontade na luta contra uma doença. Nada mais que isso. Mas o pessoal alienado e que sofre de alucinações leu mais que isso!

  • Vitonez, você traduziu aqui o que muitos estão sentindo neste momento.
    Perdi um tio e 2 colegas de trabalho para o câncer, e cada um respondeu à doença de uma forma diferente: meu tio teve diagnóstico tardio, começou a se tratar tarde demais e não aguentou mais de 6 meses; um dos colegas se separou da esposa e se entregou à doença, viveu por uns 2 anos após o diagnóstico; já o outro colega, batalhador até o último suspiro, enfrentou o tumor por uns 10 anos, fez algumas cirurgias e, mesmo doente, optou por se casar e continuar lutando pelos seus sonhos.
    Assim como o Alencar, que optou por não se entregar e não esmorecer, mas por viver – e aproveitar – a vida até o fim.
    Que tenhamos o exemplo dele nos fortalecendo a cada dia!
    Abs

  • Vitonez, belo texto.

    Também pensei nisso. Minha tia morreu de metástase no ano passado, depois de duas semanas sedadas no hospital. Quem passou por isso certamente sabe como é essa dor e essa agonia.

    Abraço!

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O dono da bola


É jornalista, palmeirense, dinamarquês por opção e sempre pensou que ia ter de cobrir futebol antes de chegar ao automobilismo, que acompanha desde os 7 anos. E desde que se formou, está na Agência Warm Up e no Grande Prêmio, isso há mais de 13 anos. Neste tempo, foi colunista do iG, escreveu para 'Folha de S.Paulo', 'Lance!' , 'Quatro Rodas' e 'Revista Audi', foi repórter da edição brasileira da 'F1 Racing', cobriu F1, Stock Car, DTM, a Indy e quatro edições das 500 Milhas de Indianápolis, e outras categorias ‘in loco’. Agora também é comentarista dos canais ESPN. Conheceu cidades como Magdeburgo, São Luís, São Bento do Sul e Nova Santa Rita, traduziu um livro da Ferrari e já plantou um monte de árvores. Tem quem fale que seria um grande ator, mas ter ganhado o Troféu ACEESP 2011 como 'Melhor repórter' da imprensa escrita mostrou a escolha menos errada. Adora comida japonesa, música eletrônica e odeia ovo, ervilha e esperar. “Necessariamente nessa ordem", diz.
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