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5 de abril de 2011 - 15:21Stock Car

Fala, Camilo

SÃO PAULO | A morte de Gustavo Sondermann no último domingo evidenciou não só a indignação dos demais pilotos pela perda do segundo colega em pouco mais de três anos exatamente no mesmo lugar, a Curva do Café em Interlagos. A fatalidade trouxe à tona o choque entre os próprios pilotos e a direção de prova e seus comissários. Maiores em número, os competidores em grande parte das vezes saem derrotados em suas reivindicações. Ao que parece, saíam. O negócio vai mudar, prometeu Thiago Camilo, líder do campeonato da Stock Car, que anunciou o nascimento de uma comissão para dar as novas diretrizes das corridas. O negócio, disse Camilo, “passa de deixar de pedido para ser imposto”.

A longa conversa que tive na tarde de hoje com ele denotou claramente a insatisfação dos pilotos com os ombros dados doutos representantes da Confederação Brasileira de Automobilismo. Ainda, revelou o pensamento estarrecedor do diretor de prova Sérgio Berti, que acredita que acidentes têm de acontecer para que sejam providenciadas soluções. “Não precisaria chegar no ponto em que chegou, mas nós tentamos por várias vezes estreitar o caminho de piloto e direção de prova e CBA e comissários desportivos de uma forma amigável. E por muitas vezes as coisas que a gente colocava no briefing ou de alguma maneira era interpretada de forma errada, até como se fosse agressão da nossa parte pelo que pedíamos”, afirmou Thiago.

Foram muitos os alertas nos últimos anos e nestas duas primeiras provas de 2011. Os problemas vinham sendo relatados. “Em São Paulo, aconteceu uma coisa que me deixou muito chateado — e a todos os pilotos: depois de falar do problema do pit-stop em Curitiba, em que atropelaram um mecânico, eu questionei se as coisas precisavam acontecer para que fossem mudadas — e já tínhamos falado que traria problemas, pelo fato de todos os carros entrarem juntos e causarem um congestionamento”, contou Camilo. As soluções eram apresentadas. “Há outras coisas que a gente vem pedindo há tempos, como o cone de aceleração na largada. Em Curitiba, quase aconteceu um acidente porque a gente não conseguia enxergar o farol da fila 2 para trás, e a gente pediu para o diretor de prova para apagar o farol um pouco antes para que tivéssemos uma segurança maior”. E o que aconteceu? “O farol foi apagado em cima e quase deu um acidente — só não deu por Deus —, e seria grave porque teria rodado na frente de todos os outros carros. Na câmera on-board do carro do Lico (Kaesemodel), dá para ver que ele quase bateu no Átila (Abreu).”

Camilo bateu muito no ponto de que são os pilotos, realmente, que sabem quais são as necessidades e chegou até a admitir que o carro da Stock Car tem problema de visibilidade. “A gente alerta e tenta passar, só que muitas vezes não somos ouvidos”. E com a morte de Sondermann, deu. “Agora, no ponto que chegou, o negócio passa de deixar de pedido para ser imposto”, bradou. Assim surge a comissão “para que um pedido nosso seja manifestado de forma oficial”, falou Thiago, “e que todas as coisas que nós achamos sejam colocadas em prática e levadas com mais seriedade.”

O grupo, que existe informalmente, terá a adesão de cinco pilotos. “Essa comissão já existiu e eu já fiz parte, mas por representar em alguns momentos o que gostaria, acabei saindo. Mas o (Felipe) Maluhy, o (Allam) Khodair, o Nonô (Figueiredo) e o (Luciano) Burti sempre fizeram um trabalho bom e sério”, falou Camilo, que entra como integrante ao lado de Max Wilson, Daniel Serra, Átila Abreu e Popó Bueno. “Agora vai ser de uma maneira diferente e oficial. Vamos tentar fazer algo mais profissional e que tudo que a gente coloque não seja mais um pedido, mas uma determinação para todos se sintam seguros na pista. De fato, o automobilismo é um esporte de risco, mas nós corremos riscos desnecessários.”

O que o piloto da RCM enxerga é que há um abuso de poder. “Ontem à noite eu liguei para o presidente [da CBA, Cleyton Pinteiro] e tenho certeza que as decisões tomadas pelo diretor de prova não eram de seu conhecimento. Eu tenho certeza que ele não é autorizado para falar o que falou e colocar o que colocou”. E perguntado sobre o que Berti havia declarado, percebe-se outro tipo de abuso. “Foi, de fato, uma declaração infeliz”, classificou Camilo, “de que os acidentes precisavam acontecer num esporte de risco para que as medidas fossem tomadas, que para evoluir precisa ser feito isso”. Muitíssimo natural, então, a reação. “Todos os pilotos ficaram chocados com esta declaração. Thiago se manifestou na hora. “Depois que eu escutei aquilo no briefing, eu usei exatamente estas palavras: ‘Vocês só vão mudar quando acontecer outro acidente fatal. Deus queira que não aconteça, mas se acontecer, vocês vão pensar em tudo que a gente fala.’ Infelizmente veio a acontecer no próprio domingo, e é por isso que está dando essa repercussão toda.”

A conclusão acaba sendo óbvia. “Existe, sim, um autoritarismo da direção de prova e dos comissários. E eles deveriam entender que não estamos lá para criar conflito. Nós só queremos ajudar de uma maneira concreta”.

Assim, quis saber se no tempo de Carlos Montagner, afastado no ano passado, havia um melhor relacionamento. “O Montagner escutava mais os pilotos, havia uma abertura maior, mas não é esse o problema, não”, apontou Camilo. “O problema vem de anos, e no nível em que está a categoria e o profissionalismo e o evento, algumas coisas não acompanharam o crescimento, e essa é uma delas.”

5 comentários

  1. André disse:

    Imposição é algo que não cai bem, mesmo em uma situação dessas. Acho que foi uma declaração um pouco desmedida do Camilo, mas entendo que queiram fazer algo bom. Só não pode cair para a banalidade. Já que é “imposição”, acredito que possa haver “greve” ou “protesto”, então que seja para coisas relevantes.
    André / Piloto no http://www.f1bc.com

  2. Joca disse:

    Dois dias estou acompanhando o que dizem.

    Curva do Café, perigosa, carro vai de encontro ao muro, é simples TIREM O PÉ.
    Chuva, não deveria ter dado a largada, é simples TEM CONDIÇÔES LARGUEM NÃO TEM NÃO LARGUEM, BASTA QUE ALGUÉM TOME A DECISÃO E ARQUE COM AS CONSEQUENCIAS.
    Carro defeituoso, com problemas É SIMPLES QUEM HOMOLOGOU, TEM LAUDO, QUE SEJA FEITA PERICIA.
    Quanto ao resgate, PELO AMOR DE DEUS O QUE FOI AQUILO, PUXARAM O PILOTO PARA FORA A MODA DIABO PELAS PERNAS, QUEM ERA O MÉDICO RESPONSÁVEL? QUAL A SUA QUALIFICAÇÃO EM AUTOMOBILISMO?

    Minha conclusão, um monte de erros, pista, carro, experiência, falta de orientação, aceitação, conivência, falta de preparo, arrogancia, dinheiro em primeiro lugar, falta de respeito, falta de responsabilidade, (me ajudem) com um resultado UMA MORTE.
    E NADA VAI SER FEITO, NA PRÓXIMA ALINHA TODO MUNDO E PÉ NO PORÃO A SORTE ESTÁ LANÇADA.

  3. marcão disse:

    O Piloto Thiago Camilo tem razão em querer criar a associação!!!

    Mas por favor só um detalhe que é importante…Ao se criar essa associação não deixem de lado pilotos de outras categorias, além das da Vicar temos outras tão importantes quando e de peso também… Isso é muito “IMPORTANTE” para que as vozes sejam hunanimes no quesito segurança e respeito principalmente á vida..
    Afinal sem pilotos não tem Stock, Montanas, porsches GTBR truck. marcas. alem das provas regionais,,,nem CBA nem federações, nem equipes nem nada….
    Essa associação a ser criada é bem vinda, tem que ter mesmo e já demorou demais pra se fazer alguma coisa nesse sentido…
    Boa sorte nessa empreitada….
    E aproveitando, alguem sabe de quantas anda a LIGA?

  4. Thiago Barbosa disse:

    Pelo menos os pilotos não vão esperar outra morte para tomar alguma atitude, coisa que deveriam ter feito há muito tempo.

  5. Julio disse:

    Que os pilotos façam uma associação nos moldes dos pilotos da F1, mas com seriedade, compremetimento e muito pé firme, afinal é a vida deles que está em risco.
    Abraços

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