Formato e sentimento duplos

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SÃO PAULO | A Stock Car estreou hoje em Santa Cruz do Sul seu novo formato ‘duplicado’, com uma bateria maior de 40 minutos, um curto de intervalo de 20 e uma nova bateria, d’outros 20. Pego três opiniões de quem lá esteve para uma análise. Cacá, depois da primeira corrida: “O importante não é vencer”; Serrinha, após a segunda: “Foi bom, mas foi ruim”. Jimenez, no pódio: “Frustrado, mas feliz”.

Se os pilotos estão com um sentimento dicotômico, quem acompanhou as corridas de fora também pode estar tranquilamente, sem remorso. A segunda prova, que teve Pizzonia vencendo na arrancada final após a última curva, foi brilhante e tal. Mas o formato geral precisa de uns bons ajustes para ficar decente.

O cenário atual praticamente impede que o piloto se dê bem nas duas provas. Quer coisa mais antagônica que isso, um piloto quase não poder lutar pela vitória? Alguma delas tem de ser privilegiada. Por exemplo: a equipe de Valdeno o pôs para ganhar a primeira, e a segunda que se lasque – teria de parar, reabastecer, fazer a novena e rezar. 24 pontos no bolso. Cacá até poderia ter conseguido coisa melhor na segunda, depois de terminar a primeira em terceiro. Ainda assim, saiu do fim de semana com um ponto a mais que o vencedor Brito.

O intervalo de 20 minutos não deixa que os três primeiros sequer respirem. Porque eles têm de estacionar o carro na posição de largada para a próxima, descem, vão para o pódio, comemoram discretamente e, pior, abrem a champanhe sem poder bebê-la ou espirrá-la nos adversários para não ficarem melados e com cheiro de nhaca véia.

Ainda, o tempo é curtíssimo para que os comissários analisem eventuais erros que comprometam decisivamente a segunda corrida e seu grid. Por exemplo: digamos que um transponder não pode falhar da forma que aconteceu com Khodair, que cruzou em décimo lugar, mas não largaria na pole da segunda prova pelo erro. É algo que se torna mais fácil com as câmeras porque ficou óbvio que Pizzonia cruzou atrás do adversário.

Ainda, é injusto com quem não terminou a primeira corrida não poder largar na segunda. Não há muito sentido privá-los de uma prova em que já teriam desvantagem clara por terem de começar no fundo do pelotão. Se o carro tiver condições, que se deixe participar e recuperar o que não puderam conquistar na primeira corrida.

Havia pensado, de início, que jogar a corrida 1 para o sábado poderia ser uma alternativa, mas, principalmente, deixaria o domingo absolutamente esvaziado. Já que a Vicar toma conta de uma série de categorias, seria mais fácil encaixar uma ali no meio – a F3, por exemplo –, antecipando um pouco o horário da primeira prova da Stock Car – 9h30 ou 10h, deixando a segunda para 11h30. Se não quiser mudar as regras de pneus e reabastecimento, que se pense em uma espécie de ‘Parque Fechado’ e impeça que os mecânicos toquem nos carros – só liberando para os que não terminaram.

Uma outra coisa, no que se refere, como diria a presidenta, a questão dos pits – e aí não é culpa da categoria: os autódromos brasileiros, em sua maioria, não nasceram para proporcionar o maior dos espaços às equipes. Sempre há problemas nas trocas porque as imperfeições são muito maiores, quando comparadas às dos campeonatos principais. Ter dois itens que definem as corridas nos boxes, pois, é problemático: ora se troca um pneu, ora se troca três – não vou entender muito uma troca de pneus em número ímpar; ora se reabastece com um tanque, ora coloca dois.

A Stock Car tem tido provas bem bacanas com pilotos do mais alto gabarito. Estudar alguns pontos quando implanta novas regras e mudá-los não é demérito. Se permitir aos pilotos que lutem para ganhar ambas as corridas e diminuir esse sentimento maniqueísta típico da personagem de Sexy Indecisa, do ótimo Tá no ar: a TV na TV, já é um grandíssimo passo.

Sobre o Autor

Victor

Jornaleiro, dinamarquês, bebum, calhorda, galhofeiro, mulambo e autor de selfies com urnas. Tô sempre no Grande Prêmio e às vezes na ESPN

5 Comentários

  • Concordo em gênero numero e grau com a sua dissertação sobre a Stock .
    Mas que as duas corridas foram ótimas lá isso foi. E notamos que aumentou
    em muito as variantes de uma corrida , acabando com a mesmice do ano passado :
    quem largava na frente invariavelmente chegava em primeiro.

  • Acho que, se derem como “prêmio” ao vencedor da primeira etapa, um tanque cheio para a segunda, o pessoal sairia no tapa pra vencer. Quem sabe, estender o prêmio aos três primeiros. Aí ninguém abdicaria da segunda corrida e o pau comeria até o final da primeira corrida.

    Concordo contigo sobre o fato de deixar o pessoal participar da segunda corrida, caso em condições.

    • Adendo:

      Acho que deve se estudar um jeito de aumentar o número de pontos dos participantes, como faz a Nascar, onde todos ganham pontos. Isso faz com que os caras que estão lá atrás saiam no tapa por qualquer posição, além de fazer com que as equipes tentem ao máximo recuperar os carros para voltar para a corrida. Além da dar pontos ao que liderar o maior número de voltas e a todos os que liderarem pelo menos uma volta.

  • O único “pecado” é essa regra do pitstop. Quererm fazer duas baterias? que façam, mas acabem com essa patifaria de parada obrigatoria. É extremamente chato corridas que são decididas por causa de consumo de combustivel e desgaste de pneu.

    Se utilizassem a mesma receita que havia nos anos 2000, seria perfeito!

Por Victor

O dono da bola


É jornalista, palmeirense, dinamarquês por opção e sempre pensou que ia ter de cobrir futebol antes de chegar ao automobilismo, que acompanha desde os 7 anos. E desde que se formou, está na Agência Warm Up e no Grande Prêmio, isso há mais de 13 anos. Neste tempo, foi colunista do iG, escreveu para 'Folha de S.Paulo', 'Lance!' , 'Quatro Rodas' e 'Revista Audi', foi repórter da edição brasileira da 'F1 Racing', cobriu F1, Stock Car, DTM, a Indy e quatro edições das 500 Milhas de Indianápolis, e outras categorias ‘in loco’. Agora também é comentarista dos canais ESPN. Conheceu cidades como Magdeburgo, São Luís, São Bento do Sul e Nova Santa Rita, traduziu um livro da Ferrari e já plantou um monte de árvores. Tem quem fale que seria um grande ator, mas ter ganhado o Troféu ACEESP 2011 como 'Melhor repórter' da imprensa escrita mostrou a escolha menos errada. Adora comida japonesa, música eletrônica e odeia ovo, ervilha e esperar. “Necessariamente nessa ordem", diz.
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