Los perros compañeros

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Punta del Este

PUNTA DEL ESTE | Justo quando se vem mais ao sur na vida que se llega à ponta do leste. É meio infantil sorrir, em meio ao barulho irritante provocado pelas rodas da mala no piso quadriculado, com a água lá e cá em qualquer cruzamento da Avenida Gorlero. Creio que vi uma luz ao outro lado do Rio da Prata e ouço uma voz que chama quase como um suspiro nesta orelha do mundo.

Uruguay. Celeste mesmo quando a manhã se faz gris e ameaçadora, quando ainda esconde sua gente mais noturna e quando a noite traz à tona quem se põe no paradero para pegar o autobus das várias cores. Gente de riso fácil, rosto belo e caráter de irmão – sem o clichê do vocábulo hispânico –, zeloso com seu lugar, verde a cuidar. Não é possível não se surpreender com o Uruguay: é muito mais do que se pensa.

O voo já denotava isso. Cheio à beirada da madrugada, trouxe gentes da nossa língua, mas muito mais diferentes e de uma fala incompreensível. Um grupo diminuto tinha lá seu Kobayashi e outros iguais mais brancos; o outro, mais extenso, via pardos de olhos puxados trajados de maneira similar. A dúvida era se eram vietnamitas e/ou filipinos, e saná-la fue un santo ejercicio. Precisou que os comissários entregassem o cartão de descrição de salud para que se conseguisse bisbilhotar, já na fila da alfândega que os mais ajeitados vinham ali da região de Hanói e os outros eram indonésios. Vinieron de barco, disse a responsável por passá-los

Montevideo tem um aeroporto, por exemplo, mais jeitoso que 80% dos nossos. É pequeno, claro, suficiente para a demanda. A limpeza dói e explica. Problema é fechar quase tudo e deixar en la mano quem tem de passar nele algumas horas. Cappuccino para dentro e risadas para fora, a chegada das 5 indica a rota para o destino final. O ônibus tem um atraso típico nosso, o procedimento de colocação das malas é similar, mas o pagamento, não. O tio careca com voz de Nair Bello emite com uma máquina o preço de las pasajes, mas não aceita que se passe la tarjeta. O ônibus de primeira classe tem uma rota como a de um comum brasileiro: para em todos os pontos; o último deles é o nosso.

Assim que se dá os primeiros passos, sente-se o mar. Ao lado do monumento dos dedos, as bandeiras azuis claras tremulam e delimitam a área onde há de haver uma corrida de rua com carros elétricos daqui três dias. Ficaria bem de frente à rodoviária da cidade não fosse um restaurante com jeito de velho oeste – que ironia.

Os cachorros urbanos estavam ali largados sem que o rapaz que varria lhes desse qualquer importância. Não tardaram a se erguer a quem lhes trocou uns 2 segundos de olhar. Na rua reta, fizeram as vezes de cicerone sem se importar com a sujeira acumulada no corpo e um certo despeito de quem nem parou para fazer um carinho diante do cansaço. Os cães então se fizeram notar ser as cães quando as necessidades lhes saíram, e era justo esperá-las para não ficarem para trás. O hotel se aproximou após o contorno da praça, mais ao leste, ao lado de uma galeria homônima concorde destruída.

A porta se abriu, e la negra y la blanca não quiseram entrar. Simplesmente se sentaram, em guarda, como que ensaiadas para aquele papel. Perros son compañeros en cualquier punto y en Punta.

Perros de Punta

Sobre o Autor

Victor

Jornaleiro, dinamarquês, bebum, calhorda, galhofeiro, mulambo e autor de selfies com urnas. Tô sempre no Grande Prêmio e às vezes na ESPN

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Por Victor

O dono da bola


É jornalista, palmeirense, dinamarquês por opção e sempre pensou que ia ter de cobrir futebol antes de chegar ao automobilismo, que acompanha desde os 7 anos. E desde que se formou, está na Agência Warm Up e no Grande Prêmio, isso há mais de 13 anos. Neste tempo, foi colunista do iG, escreveu para 'Folha de S.Paulo', 'Lance!' , 'Quatro Rodas' e 'Revista Audi', foi repórter da edição brasileira da 'F1 Racing', cobriu F1, Stock Car, DTM, a Indy e quatro edições das 500 Milhas de Indianápolis, e outras categorias ‘in loco’. Agora também é comentarista dos canais ESPN. Conheceu cidades como Magdeburgo, São Luís, São Bento do Sul e Nova Santa Rita, traduziu um livro da Ferrari e já plantou um monte de árvores. Tem quem fale que seria um grande ator, mas ter ganhado o Troféu ACEESP 2011 como 'Melhor repórter' da imprensa escrita mostrou a escolha menos errada. Adora comida japonesa, música eletrônica e odeia ovo, ervilha e esperar. “Necessariamente nessa ordem", diz.
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