Sobre a F-E e Piquet

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SÃO PAULO | Chegou ao fim a primeira temporada da F-E neste domingo em Londres. E em grandíssimo estilo. Porque envolveu justamente a categoria que deu um novo ar para o automobilismo, com pilotos de boa qualidade e uma disputa que acabou com um Senna ajudando um Piquet e cortando o barato de um Prost.

Quando a ideia de um campeonato de carros elétricos nasceu e foi posta em prática, narizes se torceram porque a essência do esporte estava sendo modificada radicalmente, sem o ronco de motores alimentados por combustão — e tema de queixas dos fãs fervorosos da F1, aterrorizados com os V6 —, troca de carros no meio das corridas porque as baterias não dão conta e fim de semana com apenas um dia para que tudo seja feito. Ao mesmo tempo, a expectativa foi de tal forma criada a ponto de muitos se decepcionarem com a estreia em Pequim.

O bom é que Pequim representou a pior prova da temporada. Nas demais, disputas foram a tônica, com provas decididas na última volta e uma penca de vencedores diferentes. Geralmente se fala que é preciso dar um tempo até que tal coisa pegue no tranco ou evolua; a F-E não precisa mais disso. Só tende a evoluir neste caminho certeiro apresentado por Alejandro Agag, que já vê a entrada de Citroën e Renault como montadoras de desenvolvimento do trem de força. E outras mais hão de vir.

O cuidado maior, na verdade, é com a escolha das pistas. Algumas são estreitas demais e não permitem o desenrolar das corridas. Mas a opção de fazê-las em grandes centros urbanos foi um dos pontos mais bem elaborados, sobretudo o da decisão deste fim de semana em Londres.

Quanto aos pilotos, seria natural que a F-E abraçasse aqueles que não tiveram lá grandes êxitos na F-1 ou na Indy, mas que premiasse os que apostaram de vez na categoria. Que Di Grassi disputaria o título, isso ficou claro desde o começo, até por ser o piloto responsável pelo desenvolvimento do carro. Com o tempo, Bird, Prost, Buemi e Piquet foram se despontando como candidatos, restando aos dois últimos a primazia da briga. Que foi acirrada pela inimizade velada dos dois brasileiros e então exposta às claras nas ruas de Mônaco.

No fim das contas, Di Grassi perdeu o título com sua desclassificação em Berlim. E acabou vendo seu desafeto faturando a taça terminando a corrida 2 na capital inglesa fisicamente atrás de si e acompanhando de camarote o modo como Buemi também deixou de ganhá-lo. Senna, que fez um campeonato pra lá de apagado com uma Mahindra fraca, não vendeu sua posição por nada neste mundo depois que conseguiu superar o errático suíço.

Piquet, Piquet… há quase sete anos, manchava sua carreira e o nome da família ao entrar num plano de se auto-prejudicar para beneficiar Alonso em Cingapura. Só ele deve saber o quanto isso remoeu em sua cabeça tempos depois, até mesmo durante o momento em que o público não sabia da armação. Todos os dedos do mundo estavam em riste para julgá-lo; foi, de fato, uma mancha, moralmente desprezível, e que muitos vão tratar de torcê-la sem fim até espremer as gotas finais do pecado.

Mas a vida segue, teve de seguir, e Nelsinho foi pulando de galho em galho para ao menos tentar se divertir. Encontrou um refúgio na América ao tentar a vida nas categorias de base na Nascar. Vendo que pouca coisa sairia dali, foi se aventurar nos X-Games e nas competições de rali. Ganhou medalha e tudo. Aí apareceu a F-E no radar. E o título vem como uma espécie de redenção.

Quase sete anos depois, ainda tem aqueles que estão torcendo o pecado até tirar mais dele o que não tem. São aqueles que preferem que a página não vire como se Nelsinho tivesse que pagar o erro com o fim de sua carreira e na solitária. Aqueles que ainda teimam em remoer este episódio têm como geral lema de existência tratar o ódio como amor talvez sem perceberem viver numa prisão perpétua de paredes de vidro.

Piquet hoje comemora o título sem se importar com eles.

Sobre o Autor

Victor

Jornaleiro, dinamarquês, bebum, calhorda, galhofeiro, mulambo e autor de selfies com urnas. Tô sempre no Grande Prêmio e às vezes na ESPN

35 Comentários

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  • bottas na ferrari. leitor pergunta: alguma chance de pimpolho piquet voltar pela willians já que papai é amigo de frank e pode até autotrackear um patrocínio? bom o garoto já provou que é….

  • Texto muito bom mesmo! Mas na minha opinião a prova inicial não foi tão sem graça assim…. pelo menos teve aquele final eletrizante com um dos acidentes mais infames da história do automobilismo, protagonizado por Prost X Heidfeld nos últimos metros, com vitória do brasileiro Lucas DiGrassi. Abraço!

  • Parabéns pela lucidez apresentada no texto.Brilhante descrição dos fatos ocorridos no passado e a perfeita constatação de que não existe culpa eterna e pecado sem perdão.Nelsinho foi protagonista de momentos extremos na carreira e soube ser grande nos dois altivez na queda e humildade na conquista.

    parabéns e meu respeito ao ilustre jornalista.

    • FÓRMULA É mesmo uma nova Fórmula, pra abraçar os desabraçados e excelentes pilotos, que não tiveram vagas na Formula-HUMMMMMMM. A Fórmula HUMMM já deu o que tinha que dar chegou em Vetel Hamilton e só, ta na hora de acabar se não evoluir, evoluir significa trocar os mandantes, trocar os gerentes, trocar os donos e agradecê-los pelo que transformaram esta categoria na mais emocionante até poucos anos atrás. A mudançaé necessária, senão vai falir todos os órgãos vitais e tchau.

  • Perfeitas as colocações do texto, e muito bem lembrado pelo leitor Paulo que foi o próprio Nelson quem denunciou a lambança.

    Página virada, segue a vida e Nelson Angelo – ou Nelson Tamsma, como queiram – mereceu com todos os méritos o título de PRIMEIRO CAMPEÃO DE UM CAMPEONATO DA F-E.

    Isso vai ficar nos registros da história, e ninguém apaga.

  • Bonito texto, Vitor, acompanho sempre aqui da Italia o que vc. escreve.
    Queria sò adicionar um adendo: Piquet Jr., na epoca de Singapore, fez o que fez porque Briatore e Symonds tinham garantido que somente assim seu contrato seria renovado… Atire a 1° pedra quem nao faria o mesmo, jovem e cheio de esperanças de seguir na F1 na epoca.

  • brilhante matéria e de um brilhante jornalista; senti poesia nas palavras elogiosas ao piloto campeão de uma categoria ecologicamente correta e que vem para desenvolver nas pistas, o futuro dos carros elétricos das ruas. Parabéns ao Nelsinho e ao brilhante Victor

  • Será mesmo que no futuro ficará melhor com uma bateria que possibilite a corrida inteira? Assim como está me parece que é o charme do sistema. Como disse meu filho, “Assim da uma sensação de triatlo, aquela emoção do atleta trocar de equipamento, nadar, correr a pé e de bike”. Quem sabe? Saber economizar a bateria, a troca de carro em si, quem fizer melhor leva.

  • Parabens ao Piquet !!
    Novamente o automobilismo renscendo a alegria do povo brasileiro ,tao desrespeitado por seu governo!!
    que venham mais titulos pois somos brasileiros e nao desistimos nunca!!

  • Prezado Victor
    Excelente reportagem! Parabéns
    Para eu que tenho Piquet pai como meu maior ídolo…verdadeiro e não fabricado pela mídia….é muito saber e conhecer profissionais como você. Sucesso

  • Excelente texto. Parabéns!
    Sonre Nelsinho, que volta por cima. Calou os críticos e mostrou que tem sangue de vencedor, resiliente e determinado.
    Errou, pagou e se redimiu.
    Merece todo nosso respeito.

  • Nasce, no deserto do jornalismo esportivo atual, a capacidade exuberante de um profissional em escrever um texto bem acima da média. Parabéns, Victor Martins.
    Por que não são execrados pela mesma mídia que condenou Nelsinho, aqueles pilotos tão conhecidos que cedem suas posições ao final de uma prova, modificando totalmente o resultado de corridas?
    Em defesa de Nelsinho, como bem disse o internauta Paulo, ele próprio revelou a armação e, acrescento, o único prejudicado naquele dia do acidente seria (foi) o próprio, que arriscou sua integridade física. Por fim, acho engraçado que o rapaz foi banido da F-1 por todos os chefes de equipes. Feliz um chefe que tem um empregado que arrisca sua própria vida por uma causa do time.

  • “Quase sete anos depois, ainda tem aqueles que estão torcendo o pecado até tirar mais dele o que não tem. São aqueles que preferem que a página não vire como se Nelsinho tivesse que pagar o erro com o fim de sua carreira e na solitária.”

    Perfeito esse trecho. Ele errou? É claro que sim, mas ele já pagou por isso. Agora a vida continua.
    Parabéns para ele e tomara que ainda ganhe muitos títulos, seja nessa ou em outra categoria.

  • Olá Victor.
    Parabéns pelo texto.
    Na época que o Nelsinho fez aquela presepada em Cingapura, eu fiquei p@#$#@.
    Foi uma mancha na história do automobilismo brasileiro, mas o tempo passou ele refletiu sobre o que fez foi para os EUA humildemente recomeçar a carreira e na minha humilde opinião começou a fazer história. Competiu na truck series 3º principal categoria da Nascar, ganhou em circuito misto na xfinit series como convidado em ROAD AMÉRICA e se não me engano ganhou em LAS VEGAS e MICHIGAN pela truck series detalhe que estes dois circuitos são super ovais.
    Não conseguiu dar continuidade a sua carreira nos circuitos da nascar acredito que por falta de patrocínio, mas continuou no Rally Cross que sinceramente não conheço, nunca sentou em F-E e foi campeão.
    Torço para que ele consiga correr na F Indy, pois é uma categoria que acompanho bastante e nossos representantes Helinho e Kanaan já estão mais para o fim da carreira.
    A conclusão que chego é que Nelsinho já pagou pelo que fez e detalhe (pagou sozinho) e não foi por causa dele que o Massa não conseguiu o Titulo de 2008 pois o próprio Massa não completou as 3 primeiras corridas daquele ano, se o mesmo tivesse chegado em 10º nessas 3 que ele não completou ele teria mais 3 pontos que o Hamilton.
    Quem perdeu foi a F-1, Nelsinho deu a volta por cima conseguiu um titulo mundial e deu orgulho de novo a nossa nação.
    Obrigado!!!

    • Super Ovais, são pistas com 2. 5 milhas por volta, com uso de placas restritoras no coletor de admissão para diminuir a potência, no caso, truck series e x- finity series usam carburador holley quadrijet. Sprint cup usa injeção direta, mas todas as 3 categorias usam placas restritoras nesses superspeedways, como daytona e talladega. Piquet Jr venceu 2 provas em ovais de 1.5 milhas. Quanto a Fórmula E, nenhum dos participantes tinha pilotado o carro antes em corridas, apenas em testes pré temporada.

  • Texto perfeito. Permita-me apenas, uma indagação sobre um aspecto que há anos me incomoda. Por que só o Nelsinho é criminalizado? E o Alonso, que foi o principal beneficiado. Ficou e continua a ficar inocentado. Claro que ele sabia da armação antes de começar a corrida. Por que ele deu mais voltas antes de parar no box? Quanto ao terceiro personagem é um canalha, não vamos perder tempo com ele.

    • “Por que só o Nelsinho é criminalizado? E o Alonso, que foi o principal beneficiado. Ficou e continua a ficar inocentado.”

      A resposta pra essa pergunta só pode ser uma: PODER!

  • Belo texto! Parabéns!
    Mostra, inclusive, que vocês do Grande Prêmio também já deixaram de “remoer o episódio”.
    Nelsinho foi brilhante. E é importante ressaltar que ele chegou ao título devido à desclassificação do Di Grassi em Berlim (Lucas, pra quem não sabe e gosta de “remoer”, correu com um carro fora do regulamento, portanto, não se pode lamentar a sua desclassificação), tampouco porque Bruno Senna lhe ajudou. Piquet foi campeão porque foi o piloto que, a despeito de ingressar na categoria às vésperas da etapa inicial e num carro “made in china”, mais evoluiu. Foi constante. Fez largadas espetaculares. E, na prova final, numa pista considerada “impossível” de se ultrapassar realizou 8 ultrapassagens para chegar na sétima colocação.

    • A equipe era made in china, os carros eram todos iguais, mesmo chassis, pneus, trem de força, caixa de marchas e bateria. Bruno Senna como qualquer competidor que se preze, estava apenas batalhando por sua corrida, nem sabia da posição de Piquet Jr.

  • Não conhecia este jornalista e jamais havia lido qualquer de suas matérias.
    A grata surpresa de poder apreciar o texto publicado referente a F-E , isento de parcialidade e emoções, com certeza me fará procurar aqui, novas matérias suas.
    Parabéns Sr. Victor Martins, inteligencia é algo que não se compra no supermercado da mídia.

  • Perfeito texto! o ultimo paragrafo, um grande tapa na cara de quem adora servir de juiz achando que é um ser perfeito… sem levar em conta que foi Nelsinho que resolveu falar o que havia acontecido.

  • Espero que em um futuro próximo eles conseguiram criar um sistema de troca de baterias, ficará muito mais interessante, mas como esta já é de bom tamanho.

Por Victor

O dono da bola


É jornalista, palmeirense, dinamarquês por opção e sempre pensou que ia ter de cobrir futebol antes de chegar ao automobilismo, que acompanha desde os 7 anos. E desde que se formou, está na Agência Warm Up e no Grande Prêmio, isso há mais de 13 anos. Neste tempo, foi colunista do iG, escreveu para 'Folha de S.Paulo', 'Lance!' , 'Quatro Rodas' e 'Revista Audi', foi repórter da edição brasileira da 'F1 Racing', cobriu F1, Stock Car, DTM, a Indy e quatro edições das 500 Milhas de Indianápolis, e outras categorias ‘in loco’. Agora também é comentarista dos canais ESPN. Conheceu cidades como Magdeburgo, São Luís, São Bento do Sul e Nova Santa Rita, traduziu um livro da Ferrari e já plantou um monte de árvores. Tem quem fale que seria um grande ator, mas ter ganhado o Troféu ACEESP 2011 como 'Melhor repórter' da imprensa escrita mostrou a escolha menos errada. Adora comida japonesa, música eletrônica e odeia ovo, ervilha e esperar. “Necessariamente nessa ordem", diz.
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