Sobre Hamilton x Verstappen na Inglaterra

S
MAX VERSTAPPEN; ACIDENTE; GP DA INGLATERRA; LEWIS HAMILTON;

Às vezes é bom deixar passar um tempo para sorver tudo que se passou diante de um grande momento que há de abrir um importantíssimo capítulo na F1.

O início da rivalidade propriamente dita entre Lewis Hamilton e Max Verstappen é algo que se esperava desde os primeiros momentos deste campeonato em que a pré-temporada já indicava uma Red Bull plenamente capaz de fazer frente à Mercedes. Nas primeiras corridas, houve uma série de situações que preparavam o público para tal: a ultrapassagem de Verstappen sobre Hamilton no Bahrein, o mesmo movimento na largada da Emília-Romanha, o chega-pra-lá na primeira curva do GP da Espanha, o toma-lá-dá-cá em Portugal. Desde então, a Red Bull deu um salto que não mais permitiu um embate apropriado entre ambos, vencendo tudo o que podia.   

Mas o novo formato do fim de semana e o caráter de match-point do GP da Inglaterra são pontos determinantes para que o pavio tivesse sido aceso neste domingo.

A novidade do Sprint Qualifying – SQ, para os mais chegados – foi o primeiro sinal de que as coisas culminariam naquela primeira volta da corrida principal. Hamilton era o pole de fato, perdeu a primeira posição para Verstappen já antes do contorno da primeira curva e, nas curvas seguintes, tentou a ultrapassagem. Pegou o vácuo assim que entrou na reta onde se largava originalmente em Silverstone e efetuou o mesmo movimento. Lewis preferiu recuar porque ali tinha muito a perder: ninguém queria um carro quebrado para dar problemas aos mecânicos em pleno sábado ou, como Pérez, ter de tentar fazer uma corrida de recuperação no dia seguinte para colher pontos em migalhas.

O SQ mostrou que estar em primeiro na primeira volta era imprescindível para o resultado da corrida. Hamilton precisava daquilo para vencer e evitar que o campeonato fosse para as mãos de Verstappen.

Para a turba anônima e apócrifa que logo brota tirando conclusões precipitadas, não há nada até aqui – e daqui em diante, diga-se – que faça qualquer ilação de que Hamilton e a Mercedes tramaram qualquer coisa. Até porque simplesmente não é do feitio nem de Toto Wolff nem de Hamilton pensar em algo do tipo. Silverstone não é Singapura.

Vieram as cinco luzes apagadas no domingo. Hamilton não conseguiu passar Verstappen na largada da corrida principal, mas fez dura competição nos metros iniciais. Na reta Wellington, a primeira que vem na sequência, os carros se emparelharam a ponto de não haver um vácuo lateral. Verstappen se manteve à frente, mas Hamilton conseguiu fazer as tangências das curvas Brooklands, Luffield e Woodcote melhor a ponto de se ver na mesma situação do dia anterior.

Hamilton veio com muito mais velocidade, pegou o vácuo de Verstappen e jogou o carro à direita. Os carros ficaram novamente lado a lado. A curva Copse vinha se aproximando. Max freou um pouco mais tarde do que Lewis e lhe deu uma pequena vantagem. Os dois fizeram a curva em alta velocidade. Deu-se o acidente – que, como qualquer outro ali naquela região do circuito, provocou tal impacto.

Aqui, minha visão: há uma análise fria de quem observa os fatos sem considerar que ali os pilotos se aproximam de 300 km/h e qualquer decisão dura provavelmente menos de 1 s. Não há como não avaliar o caso sem pensar que nenhum dos dois ali tiraria o pé ou teria condição para tal. Porque na cabeça de Verstappen, ele contornaria a curva em primeiro; na cabeça de Hamilton, ele contornaria a curva em primeiro. Max tinha a tangência ideal, com aquele pedaço de carro à frente, e Lewis estava por dentro. O holandês fez a curva como se não houvesse ninguém ali ao seu lado e o inglês fez a curva sem ter reação para evitar o choque.

Casos similares no passado não levaram a punição alguma. Mas ali eram Verstappen e Hamilton.

Entendo que a forma como Verstappen se acidentou, descendo do carro zonzo e sem fôlego, contribuiu decisivamente para a punição de 10 s aplicada pela FIA. A ela também se soma uma certa prudência em tom de aviso: os comissários estão de olho que agora se trata de uma briga deflagrada e precisam colocar um certo limite. E também aqui é importante observar o fato consciente do que foram falar Red Bull e Mercedes à entidade, com a pressão de um lado e a condescendência, por e-mail, de outro.

Verstappen já estava ali derrotado e sem condições de se recuperar. Hamilton estava na pista. A bandeira vermelha acabou lhe sendo providencial porque provavelmente o carro teria avarias que lhe jogariam para uma posição além-Pérez. A Mercedes pode arrumar o #44.

Assim, o máximo que consigo ver de culpa em Verstappen é não ter dado espaço suficiente para que os dois carros pudessem contornar a curva – ele o deu plenamente na disputa. É que, se ele o faz, como Charles Leclerc fez mais tarde, fatalmente perderia a posição porque não teria a tangência correta e escaparia para a área extrapista. Mas, ressalte-se: culpa é um termo muito pesado para alguém que estava ali simplesmente correndo e lutando por uma posição.  

Da mesma forma, o máximo que consigo ver de culpa em Hamilton foi não ter pensado que Verstappen não tiraria o pé. Se as posições fossem inversas, tenho impressão que o choque ocorreria da mesma forma, e Lewis seria o prejudicado. E, da mesma forma, Toto Wolff estaria chamando Verstappen de desrespeitoso, pedindo o banimento por uma corrida daquele moleque, enquanto Christian Horner e Helmut Marko dariam risada, falariam que Hamilton foi para o tudo ou nada e simplesmente levantariam a plaquinha de ‘segue o jogo’.

Alegar que a Copse não é lugar de ultrapassagem, como a Red Bull o fez, provou-se tosco ao longo da corrida: foi justamente lá que o afrontoso Hamilton passou Lando Norris e Leclerc. Logo imaginei a Indy dando bandeira amarela nos 4 curvões de Indianápolis impedindo que um piloto passe outro por ali…

Sigo com a opinião de que foi um incidente de corrida. De que Hamilton e Verstappen, racers em estado puro, agora se conhecem melhor e a pleno. De que a batalha entre os dois será deliciosa de se acompanhar. E que os personagens que estão ao seu redor – nas equipes; namorada não conta – são ideais para dar o tempero especial no restante da temporada 2021 e, tomara, na virada da nova era da F1 com este carro mais simples.

A vitória de Hamilton é o ‘it’s coming home’ que os britânicos não viram na semana anterior na final da Eurocopa, salva o campeonato e dá a ele um outro tom. Porque, duvido, nem Red Bull nem Mercedes, diante do que aconteceu, vão poupar esforços em aprimorar os carros deste ano para ficar com o título. E isso conta o Mundial de Construtores, porque aquele Pérez que venceu no Azerbaijão desapareceu e o Bottas que está vendo a porta da rua aberta tem entregado os resultados que se espera dele.

A F1 precisava destes bicudos que representam o melhor que a categoria pode ter nos últimos tempos. A briga vai tirar deles aqueles 110%. E Hamilton, que trabalha bem a parte mental, sabe que ao menos as três próximas corridas serão na casa do adversário, com o mar laranja invadindo Hungria, Bélgica e, claro, Holanda.

***

Não é um fenômeno particularmente novo, aliás, atestar a defesa quase figadal de um ou outro lado em uma disputa que envolve dois oponentes do calibre de Hamilton e Verstappen. Da mesma forma, não chega a espantar que, em tempos coléricos, as argumentações rasas que se iniciam no demérito insano do inimigo deem lugar rapidamente a ofensas e xingamentos – que esbarram na criminalidade – em meio ao apoio do ídolo.

O que chama atenção neste ambiente é o surgimento de uma forte e feroz torcida adolescente. Considero relevante e importante a formação de um novo grupo de espectadores e consumidores do produto Fórmula 1, seja pela via dos games/esports, seja pela geração ‘Drive to Survive’, mas este grupo de jovens não aprende nos videojogos e nas produções cinematográficas o que é na prática uma competição de carros ou a história dos grandes que nos trouxe até este momento.

Torcem para Verstappen, Leclerc, Lando Norris ou George Russell, mas agem como Yuki Tsunoda com boca-suja sem propósito ou sem conhecimento de causa. Acabam evidenciando, com suas emoções afloradas, uma falta de noções básicas de respeito em meio a certa infantilidade.

Infantilidade que é não é vista apenas nos jovens: tem marmanjo que, olha…

Sobre o Autor

Victor

Jornaleiro, dinamarquês, bebum, calhorda, galhofeiro, mulambo e autor de selfies com urnas. Tô sempre no Grande Prêmio e às vezes na ESPN

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O dono da bola


É jornalista, palmeirense, dinamarquês por opção e sempre pensou que ia ter de cobrir futebol antes de chegar ao automobilismo, que acompanha desde os 7 anos. E desde que se formou, está na Agência Warm Up e no Grande Prêmio, isso há mais de 13 anos. Neste tempo, foi colunista do iG, escreveu para 'Folha de S.Paulo', 'Lance!' , 'Quatro Rodas' e 'Revista Audi', foi repórter da edição brasileira da 'F1 Racing', cobriu F1, Stock Car, DTM, a Indy e quatro edições das 500 Milhas de Indianápolis, e outras categorias ‘in loco’. Agora também é comentarista dos canais ESPN. Conheceu cidades como Magdeburgo, São Luís, São Bento do Sul e Nova Santa Rita, traduziu um livro da Ferrari e já plantou um monte de árvores. Tem quem fale que seria um grande ator, mas ter ganhado o Troféu ACEESP 2011 como 'Melhor repórter' da imprensa escrita mostrou a escolha menos errada. Adora comida japonesa, música eletrônica e odeia ovo, ervilha e esperar. “Necessariamente nessa ordem", diz.
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