A cor do ridículo

A

FIA

SÃO PAULO | Xô dizer umas coisinhas, agora que eu resolvi, do nada, retomar este blog – não xinguem se eu não escrever depois.

Hoje em dia se bate muito na tecla do empreendedorismo e da gestão, como se a vida fosse basicamente um espaço de tempo válido para formar profissionais bem sucedidos. Já que as pessoas são medidas na escala maniqueísta do sucesso e do fracasso, pergunto: o que é, e por que ainda está devidamente empregada, esta direção da Ferrari?

Em todas as sete provas do campeonato 2019, Mattia Binotto e seus comandados praticaram ou demandaram algo que acabou resultando em um erro ou desastre: a ordem para Leclerc permanecer atrás de Vettel na Austrália (obedecida) e no Bahrein (desobedecida), a ordem para Leclerc abrir para Vettel na China e a mudança na estratégia do moleque que o fez perder um quarto lugar, a tática que impôs a Leclerc no GP do Azerbaijão depois que ele errou na classificação, as duas ordens para trocar posições entre os pilotos na Espanha, a decisão tosca em não mandar Leclerc para a pista no fim do Q1 em Mônaco e a tática ligeiramente errada com Leclerc seguida do esquecimento em avisá-lo da punição a Vettel no Canadá.

Daí, diante da pena que fez Vettel perder a corrida em Montreal, levou uma semana até solicitar a revisão do resultado com a garantia de que tinha evidências fortes para retomar o que havia conquistado em pista. E, então, nesta sexta, a FIA negou e apresentou sua explicação, mencionando o que a Scuderia havia apresentado como argumentos.

Cinco dos sete itens eram de fatos de notório conhecimento público – como ‘camera face’ de Sebastian, algo que poderia ter sido evitado se alguém com algum senso de noção estivesse à mesa de reunião que juntou tais evidências. O sexto era irrelevante. O sétimo… o sétimo era um VÍDEO DE ANÁLISE DE KARUN CHANDHOK.

Chandhok, que nada mostrou na Fórmula 1 como piloto da Hispania, tem se apresentado como ótimo comentarista na britância Sky Sports. Depois do GP do Canadá, explicou didaticamente por que Vettel não deveria ter sido punido. Daí que era pura e meramente uma opinião de um ex-piloto, tal qual a de Jenson Button (também contra), ou de Nico Rosberg e Jolyon Palmer (ambas a favor).

O que se esperava de evidência era um dado de telemetria incisivo ou uma nova imagem, em velocidade normal, de que Vettel fez o que qualquer um faria naquela situação. Alardear que havia um elemento novo e cabal, vir com isto e depois sair reclamando que a FIA arruína o esporte – o que, sim, tem seu fundo de verdade – só faz crer que esta Ferrari contribui severamente para que haja esta ruína com esta gente que diz tocá-la e que não tem cacife para ser nem metade do que é a Mercedes.

Agora, dizem ter encontrado um erro na parte frontal do carro que fez a equipe perder 0s3 em todas as pistas. Com 1/3 do campeonato. E pelo treino desta sexta na França, não há ainda sinal de resolução.

É essa a equipe que recebe US$ 73 milhões (R$ 280 milhões) – no caso desta temporada – simplesmente por existir, na divisão vergonhosa que a F1 medrosamente sustenta de seus ganhos. É igualmente vergonhoso ver o momento em que o time se encontra: num limbo de gestão, com empreendedores fraquíssimos, movidos pela emoção. O novo Marchionne – John Elkann – deveria mandar todo mundo passar lá no RH de Maranello, mas ele também não tem entendimento algum de como se toca um time de Fórmula 1. Binotto até entende de motor, mas não tem capacidade de ser o chefe e, tampouco, de pedir o boné vermelho. Nenhum deles tem, nota-se, no pessoal e no profissional, noção do ridículo.

Assim, vai ficar assim mesmo.

Sobre o Autor

Victor

Jornaleiro, dinamarquês, bebum, calhorda, galhofeiro, mulambo e autor de selfies com urnas. Tô sempre no Grande Prêmio e às vezes na ESPN

7 Comentários

  • Boa reflexão!

    Todos os erros da Ferrari/Binotto ocorreram quando o Leclerc andou no mesmo ritmo ou mais rápido que o Vettel.

    Binotto faz o que faz por ser prata da casa, lembra o típico profissional “cordeirinho”; provavelmente sabe que toma decisões erradas, mas age assim porque foi desta forma que chegou ao cargo atual. Talvez seja o motivo de seguir a filosofia da empresa ao pé da letra que sabidamente é fazer com que o piloto que recebe um salário maior termine a corrida a frente do piloto que recebe um salário menor para poder justificar escolhas/convicções.

    Simples assim.

  • Segundo o matemático Oswald de Souza, 99% dos fãs de F1 não lembravam mais da existência de Karun Chandhok. A Ferrari o “ressuscitou”, e ele agora é o protagonsita de um dos momentos mais ridículos da escuderia.

    Sobre a “administração” de Binotto, vou chutar o pau da barraca: estou com saudade dos caras que comandavam a Coloni, a Andrea Moda, a Eurobrun e a Hispania.

    Espero que você continue escrevendo no blog.

    Acho que seria legal você divulgar mais o programa Limite, da ESPN.Eu tomei conhecimento 5 minutos antes da estréia.Vi e gostei.

    Vettel: espero que as coisas piorem – se é que é possível – e ele se aposente no fim do ano.

  • Show vitor ,você e muito preciso nas suas analises nao tiro uma virgula do seu comentario Parabens pelo site GRANDE PREMIO você e todo pessoal que fazem parte dele que tenho o habito de ler todos os dias Um grande Abraço !

  • Exploda-se a Ferrari, o que importa é que você voltou a escrever.
    O resto a gente resolve depois.
    Agora, ao assunto do post, plagiando aqui o Sérgio Maurício do SporTv, esse “Harry Potter” de fato é de uma incompetência interestelar. . .
    Saudades do “Arivederci”. . .
    Abraço.
    Zé Maria

Por Victor

O dono da bola


É jornalista, palmeirense, dinamarquês por opção e sempre pensou que ia ter de cobrir futebol antes de chegar ao automobilismo, que acompanha desde os 7 anos. E desde que se formou, está na Agência Warm Up e no Grande Prêmio, isso há mais de 13 anos. Neste tempo, foi colunista do iG, escreveu para 'Folha de S.Paulo', 'Lance!' , 'Quatro Rodas' e 'Revista Audi', foi repórter da edição brasileira da 'F1 Racing', cobriu F1, Stock Car, DTM, a Indy e quatro edições das 500 Milhas de Indianápolis, e outras categorias ‘in loco’. Agora também é comentarista dos canais ESPN. Conheceu cidades como Magdeburgo, São Luís, São Bento do Sul e Nova Santa Rita, traduziu um livro da Ferrari e já plantou um monte de árvores. Tem quem fale que seria um grande ator, mas ter ganhado o Troféu ACEESP 2011 como 'Melhor repórter' da imprensa escrita mostrou a escolha menos errada. Adora comida japonesa, música eletrônica e odeia ovo, ervilha e esperar. “Necessariamente nessa ordem", diz.
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